Vocês podem
pensar:
-Que
disparate! Toda a gente sabe que os crocodilos vivem nos rios, não nas
florestas!
Mas, esta
floresta fica entre o rio e o mar e este crocodilo até tem uma amiga que é um
golfinho fêmea, chamada Zizi. Eles gostam de conversar e, todos os dias se
encontram na margem do rio ao fim da tarde, para contar os últimos mexericos um
ao outro.
Um dia Zizi,
que esperava o seu amigo ia observando o pôr-do-sol. Estava tão distraída que
se assustou, dando um saltinho quando alguma coisa a picou.
-Será um
peixe? – pensou Zizi voltando-se graciosamente.
Esta volta foi
fatal para ela porque se enredou numa rede. Zizi tentou libertar-se mas quanto
mais se debatia mais presa ficava.
Felizmente o
seu amigo crocodilo, chegou nessa altura e cortou a rede com os seus dentes
afiados.
Passado algum
tempo e deixando a sua amiga recompor-se do susto, o crocodilo disse:
-Sabes de quem
é a culpa disto tudo? É do Homem. Hoje, cheguei atrasado porque me chamaram
para ir soltar o nosso amigo Ouriço na floresta. Ele estava preso numa
armadilha e, tu sabes bem quem usa coisas dessas.
Os animais da
floresta eram todos amigos do nosso crocodilo porque ele ajudava a todos.
- Ah, disse
Zizi, isto agora acontece todos os dias, ontem foi a vez da raposa!
- E ontem
apareceram aqueles animais que falam muito alto…como se chamam? - perguntou
Têtê.
- Eles não
falam… ladram e uivam à noite, são os cães…, explicou Zizi.
- Pois é, mas,
eles assustam as crias dos patos no lago, os coelhinhos da dona Coelha…é uma
confusão! - queixou-se Têtê.
- Mas eu não
compreendo…de onde vieram todos eles? – perguntou Zizi.
Têtê inchou o
peito de ar, ele sabia sempre “tudo” e explicou:
- São os
homens que os trazem até aqui de carro, a dona Passarinho contou-me, ela viu.
-Mas, eu não percebo
…, replicou Zizi abanando a cabeça, porque os deixam ficar e se vão embora?
Têtê baixou a
cabeça e disse que isso não sabia. Só sabia que o rei da floresta tinha
convocado todos os animais para uma reunião de urgência hoje à noite.
Nessa mesma noite,
debaixo de um céu estrelado e de uma lua muito brilhante em forma de foice…
O rei da floresta, que mais não era senão o Ouriço-cacheiro
que por ser muito pequeno e para todos os animais o verem, estava em cima duma
rocha, à beira do lago.
À medida que
os animais iam chegando, reuniam-se à volta da rocha e esperavam. Os últimos a
chegar foram os peixes e os golfinhos.
Enquanto o
chefe dos golfinhos explicava que tinham tido outra reunião, para tomar medidas
preventivas sobre as redes que apareciam no mar, estavam todos muito atentos e
não repararam nos vultos silenciosos e cabisbaixos que se acercaram para
escutar.
O Ouriço tomou
a palavra e disse:
- Queridos amigos,
chamei-vos aqui para decidirmos o que fazer. A nossa floresta está cheia de
lixo, o nosso rio também e para cúmulo agora temos estes seres estranhos que
assustam as nossas crias e fazem tanto barulho de noite. Já reparámos que eles
são parecidos com o Lobo - o rei da floresta dirigiu-se ao Lobo
interrogativamente – algum parente distante talvez…
-Não que eu
saiba… - respondeu orgulhosamente o Lobo.
Os outros
animais insistiram numa grande algazarra que o Lobo fosse falar com os cães.
Por fim, este acedeu e ficou combinado que no dia seguinte, o Lobo iria para
perto da estrada, no fim da floresta e se visse os cães falaria com eles.
Antes que o
rei Ouriço pensasse em mandar os seus amigos para casa, dando por finda a
reunião ouviram-se uns ganidos tímidos. Todos os animais se viraram e viram
pela primeira vez os vultos dos cães recortando-se no céu estrelado. Um
murmúrio de susto percorreu a floresta.
- Não tenham
medo de nós…estávamos a ouvir…não sabíamos que tínhamos causado tantos
problemas. – disse um dos cães que era mais velho e sábio.
Os animais da
floresta olharam todos para o Ouriço, este recompondo-se rapidamente falou:
- Ainda bem
que estão aí…não nos querem explicar o que se passa? Vocês não são animais da
floresta…o que fazem aqui?
- Eu…eu…fui
deixado aqui pelo meu dono…mas deve ter sido engano…estou só à espera que ele
me venha buscar. – disse um cãozinho muito novo, nervosamente.
-
Coitadinho…és tão inocente…quantas vezes te preciso de dizer que isso nunca vai
acontecer. Eu fui abandonado no meio da minha cidade e desde então tenho falado
com os outros cães que também foram abandonados…Vim aqui parar, fugindo dos
maus-tratos dos humanos.
Os animais da
floresta olharam uns para os outros e abanaram a cabeça…eles, às vezes, já
tinham visto humanos ao longe, acompanhados de cães. Nessas alturas todos se
escondiam nas tocas ou nos ramos altos das árvores, conforme as possibilidades,
e ficavam muito quietos. Agora isto de os humanos serem donos dos cães e
tratarem-nos mal, estava além da sua compreensão.
O rei ouriço
tossiu aclarando a voz e disse:
- Vocês podiam
esclarecer porque os humanos sujam a floresta o rio e o mar?

O cão mais
velho abanou a cabeça e respondeu:
Entretanto,
Zizi e Têtê ouviam toda esta conversa muito espantados. Têtê ficou muito
nervoso e pediu permissão ao rei para falar:
- Devíamos dar
uma lição a esses humanos, não está certo…eles destroem tudo!
Todos os
animais aprovaram em grande algazarra. Então o Lobo falou calmamente:
- Está tudo
muito bem …mas o que podemos fazer? Pois é, – insistiu o Lobo – nós não somos
como os cães, os gatos e até as ovelhas que vivem com o Homem.
Então o cão
velho disse:
- Mas eu posso
ir até à cidade e falar com os outros animais e …fazemos greve…pronto!
- Greve? –
perguntou Zizi timidamente.
- Sim, boa
ideia! – disse o crocodilo Têtê, que não sabia o que era greve mas, era todo
por novas ideias.
E foi assim
que todos os animais da floresta e os cães abandonados resolveram fazer greve
mesmo sem saberem o que era.

A dona
Passarinho e o senhor Passarinho também se ofereceram para ir à cidade, a Dona
Formiga e até o Caracol, o Sapo foi saltitando e a dona Pata mancando com a
filharada toda a trás.
Era um
estranho cortejo mas os humanos estavam tão atarefados, como sempre aliás, que
nem repararam nos ajuntamentos de animais e nas reuniões secretas durante a
noite. Na verdade foi uma coisa nunca vista, a família Passarinho falava com a
família da dona Gata, decidiram qualquer coisa e depois separaram-se muito
felizes.
Passado uns
dias o agricultor reparou que os seus bois não puxavam a carroça, as suas vacas
não davam leite, as galinhas não punham ovos e pior que isso havia imensos
ratos a passear pelo campo e pela cidade pois os gatos não os caçavam. A cidade
ficou um caos, os ladrões andavam à vontade porque os cães não ligavam nenhuma.
Os passarinhos não cantavam de manhã e as pessoas andavam deprimidas. Mas,
continuavam a fazer as mesmas coisas, vivendo atarefadas e correndo sempre de
casa para o trabalho.
Foi no meio
desta confusão que, a Zizi salvou um menino, que andava a praticar surf, de se
afogar. Este menino tinha uma alma pura e sabia falar com os animais,
agradeceu-lhe em língua de golfinho no mais puro estilo.
Zizi
admirou-se com isto e estava a contar ao seu amigo Crocodilo, quando Têtê
gritou, pois acabara de ter uma ideia crocodiliana:
- E se o teu
amigo, o menino surfista, fosse o intermediário entre os humanos e os animais?
hã ?hã?
Zizi ainda
estava a pensar o que seria “intermediário” quando apareceu o Ouriço que vinha
pedir um favor ao Crocodilo. O Ouriço tinha escutado tudo e pediu à Zizi para
ela trazer o menino no dia seguinte à mesma hora.
No dia
seguinte ao pôr-do-sol, Zizi chegou pontualmente com o menino surfista
pendurado no seu dorso. O rei Ouriço e o crocodilo Têtê já estavam à espera.
Explicaram ao menino a situação e perguntaram-lhe se ele podia ajudar.
- Não adianta
falar com os adultos, disse o menino, são poucos os que podem compreender e
mudar. Mas, com as crianças é diferente. Prometo trazer todos os meus amigos e se
eles concordarem, faremos tudo mudar.
E é assim
que os animais e os homens passaram a viver lado a lado em perfeita harmonia e companheirismo.
E a Terra finalmente ficou limpa e em Paz.
***
Este conto foi escrito para os meus alunos do 8º ano, em 2007/2008. Com ele fizeram um teatro de marionetas, actividade inserida num projecto de solidariedade para com os animais abandonados. :)
E a Terra finalmente ficou limpa e em Paz.
***
Este conto foi escrito para os meus alunos do 8º ano, em 2007/2008. Com ele fizeram um teatro de marionetas, actividade inserida num projecto de solidariedade para com os animais abandonados. :)
Paz e Amor
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