Há muito tempo, em Jodhpur na Índia, reinava um grande
Marajá. Ele era sábio e justo e por isso era amado pelos seus súbditos.
Enquanto outros Marajás se preocupavam com o seu próprio
prazer mantendo muitas mulheres e comendo muitas iguarias delicadas o nosso
Marajá era conhecido por ter apenas uma mulher, a sua Marani, a qual consultava
em assuntos de estado e que sempre o acompanhava nas suas viagens, reinando os
dois em igualdade.
Sendo muito espirituais iam muitas vezes para o deserto de
Thar, desfrutar do silêncio e meditar. Esta estória que vou contar passou-se
numa destas viagens.
Um dia, ao cair da noite, estando o Marajá e a Marani
sentados à porta da sua tenda a contemplar as primeiras estrelas, viram um
vulto negro, que parecia um homem debruçado num camelo, a aproximar-se
lentamente.
O Marajá chamou o seu fiel escudeiro e pediu-lhe para ir ver
quem era… Ao ser conduzido até à tenda o camelo revelou na sua garupa um homem
muito desidratado quase moribundo.
Durante sete dias foi tratado de corpo e alma e na noite do
sétimo dia pediu para ser conduzido ao seu anfitrião e salvador.
O Marajá e a Marani convidaram o seu protegido para cear com
eles e prepararam-se para ouvir a sua estória.
Manu, assim se chamava o peregrino, respirou fundo, ajeitou a
manta e narrou a sucessão e eventos que o trouxera até ali.
“- Assim como há homens que coleccionam espadas eu colecciono
amigos que me transmitam algum tipo de conhecimento – disse Manu, suavemente.
Uma noite estava eu
no deserto, num local mais a ocidente do que este, perto da fronteira com o
Paquistão quando fui surpreendido com um homem Iraniano, de nome Farshid, que ia
para o Tibete.
Sentou-se comigo ao fogo, porque as noites no deserto são
frias e enquanto eu mexia as brasas com um graveto, para fazer o chai, perguntou-me:
-Sabes porque não se deve mexer no fogo com metal afiado? –
disse ele, olhando para mim com olhos extraordinariamente brilhantes.
Abanei a cabeça negativamente um pouco surpreendido com a
sua pergunta.
-Uma espada remexendo no fogo pode cortar a cabeça do Deva
do Fogo. – continuou ele.
- Sim - disse Manu - existe uma lenda que diz isso, já ouvi
dizer.
-Mas também o podem libertar e transformar num homem. Foi
isso que aconteceu comigo. – respondeu Farshid, agora com os olhos
relampejantes e vermelhos e labaredas vermelhas e amarelas saindo da sua aura.”
- Claro que fugi que nem louco assim que o vi a dormir. –
disse Manu, terminando a narrativa.- E, depois de vários dias, sem água nem mantimentos,
que na pressa deixei no acampamento, aqui estou. Se não fosse a sabedoria do meu
camelo e a tua bondade, nem sequer estava vivo para o contar.
O Marajá e a Marani ouviram, calmamente e com muita atenção, toda a
narrativa e recolheram-se depois de desejarem as boas noites a Manu.
Ainda o dia não tinha nascido e já o Marajá estava em
meditação virado para o sol nascente.
Quando abriu os olhos, verificou que tinha um homem em
posição de meditação sentado ao seu lado. O Marajá tinha um perfeito domínio dos
seus nervos e não se alterou.
Como o homem estava absolutamente concentrado, aproveitou
para o observar com atenção, e viu as cores da sua aura. Nesse tempo recuado, a
humanidade ainda tinha a capacidade de ver auras, e o Marajá já tinha visto um
Deva do Fogo antes.
Percebeu que era Farshid, que quer dizer ser brilhante e resplandecente
em Persa. Esperou até o seu companheiro acabar a meditação e sorrindo, deu-lhe as boas vindas quando este o olhou com olhos de fogo.
-Sei que sabes quem sou – disse Farshid – então, porque não
tens medo de mim?
- Não temo os Filhos do Sol, eu também sou um.- disse o
Marajá sorrindo.
Então, Farshid contou-lhe que tinha procurado Manu durante
sete dias para lhe entregar os seus pertences. Além disso queria agradecer-lhe
pela hospitalidade.
Quando o Marajá explicou a Manu, que significa ser pensante
em sânscrito, ele entendeu. E mais tarde, depois de conversar com Farshid, agradeceu-lhe
um pouco envergonhado, partindo ambos na direcção do Tibete.

A Marani deu o braço ao marido e suspirou feliz por ter um
marido tão sábio e… belo, disse de si para si, sorrindo enlevada. J
Dedicado a Maria S. para que não se esqueça que o seu coração é o trono de Brahma, o Deus manifestado.
Paz e Amor,
Curadora64
Copyright © Curadora64 All Rights Reserved. You may copy and redistribute this material so long as you do not alter it in any way, the content remains complete, and you include this copyright notice link:



