Falar sobre o Amor um assunto inesgotável para a Humanidade. Somos Amor viemos do Amor e contudo ainda temos tanto para aprender sobre a sua manifestação nos reinos materiais.
Neste artigo existe uma espécie de conclusão sobre a meditações sobre o Amor, porque embora vá falar das quatro qualidades do Amor*, e é importante entendê-las enquanto verdades espirituais intangíveis e que não se podem medir materialmente; existe também um pragmatismo associado a estas qualidades que ao serem evidenciadas na nossa vida quotidiana, enquanto praticantes do Amor, não deve ser desprezável.
Confusos? :)
Vamos começar pelas qualidades principais, as mais conhecidas: Amor que deseja o bem do ser amado e a sua felicidade, sem apego nem benefícios; Compaixão como desejo de que o ser amado esteja livre de sofrimentos; Alegria e regozijo pelos sucessos e aquisições do ser amado; Amor Incondicional como extensão do Amor sem fronteiras no Espaço e no Tempo.
Expandir o Amor
Agora vamos transportar isto para a vida do quotidiano e vamos começar por destruir as fronteiras ou barreiras do amor.
Amar todos da mesma maneira incondicional, ou seja, amar quem gosta de nós e quem não gosta e o mais difícil amarmos-nos a nós mesmos. Amar destruindo o Espaço-Tempo, ou seja, amar a Totalidade... Deus...
Agora já parece impossível porque na prática é amar a vizinha que nos ofendeu, amar o estrangeiro que nos "ficou" com o emprego e, pior que tudo, aceitar as nossas imperfeições...
Bom, mas isso não é nada comparando com o amor por Deus porque nós, completamente absorvidos na matéria, o que conhecemos d'Ele?
Assim sendo é impossível amar abstractamente. Estamos de acordo, são barreiras atrás umas das outras...rsrs
Que fazer?
Primeiro: conheçam-se a vós mesmos e aceitem-se mesmo quando a clareza vos rouba o orgulho que tinham de serem "os maiores", de nunca, mas nunca, a responsabilidade ser vossa. (cuidado para não caírem no pessimismo - primeira maré negra)
Depois e é aqui que aparece a primeira maré luminosa: agradeçam as vossas qualidades, orem para que se expandam e agradeçam tudo de bom que têm na vossa vida. Se compararem com mais de metade da Humanidade são riquíssimos porque têm o que é necessário para poderem ler este artigo, entendê-lo e até terem tempo livre para o fazer...
(mais felizes? espero que sim :))
Então, já vimos que o amor começa por nós mas, não é a auto-complacência e, sim, um amor maduro e sem véus.
Segundo
Então, agora vão encher o coração de amor por alguém por quem têm um amor o mais puro possível (segunda maré luminosa) e depois dediquem-se à próxima dificuldade (segunda maré negra).
Pois é... já cá faltava o velho ódiozinho, a velha rixa que dura há anos... aquela coisinha que, ainda nos rouba o sono à noite... Então entendam que aquela pessoa tem muitas qualidades (enumerem-as todas porque afinal conhecem-na melhor do que ninguém) e além disso é muito boa para alguém que ama também, tal como vós amais... e a sua vontade é ser feliz tal como vós.
Vazem esse amor que tinham no coração, o amor pelo vosso ente querido, na alma do vosso inimigo e vejam-no feliz e iluminado.
E pronto, neste bocadinho acabamos de aplicar as quatro incomensuráveis qualidades. :)
Penúltimo
Agora, percam tempo a percorrer a humanidade que sofre, sejam específicos, se for preciso vejam os telejornais...rsrs... e peçam pelos que estão presos, mesmo com justiça humana; pelos que têm fome; pelos que matam; pelos que roubam; pelos que, enfim, ainda vivem na ignorância ou têm a maré de um mau karma neste mesmo instante.
Sempre tive amigos especiais. Lembro-me de uma amiga de liceu, a Luísa, que me disse que desgraças podem acontecer a qualquer um, ninguém está livre...
Apenas a Compaixão verdadeira, em que queremos aliviar o mal que acontece aos outros irmãos tem o poder de alegrar as suas vidas.
E por último...
Comecem pelo pensamento, disciplinem-se e alegrem-se por estarem vivos e pensem sempre o melhor dos outros, vão ver que rapidamente esse bem se comunicará à vida material de todos e isso não será a melhor forma de amar Deus?
Amor (páli:Metta) - desejar que todos os seres tenham a liberação de dukkha;
Compaixão (páli:Karuna) - desejar que todos os seres tenham a liberação das causas que geram dukkha;
Alegria-amistosa (páli:Mudita) - perceber as potencialidades de todos e se alegrar com isso (inverso da inveja);
Equanimidade (páli:Upekkha) - desejar a libertação para todos, sem distinção de amigos e inimigos, pessoas que se gosta, pessoas que não se gosta.
Dedico este artigo ao David para que não desista na busca pela perfeição...
Assim foi dito pelo Mestre dos mestres:
"Pedi, e vos será concedido; buscai, e encontrareis; batei, e a porta será aberta para vós. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá." - Mateus 7:8
Um estudo conduzido pelo neurocientista Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin (EUA), descobriu que pessoas que meditaram por milhares de horas exibem uma diferença notável em suas ondas cerebrais em comparação com a média das pessoas.
O psicólogo Daniel Goleman, que coescreveu “Altered Traits” com Davidson, explica melhor o que isso significa:
Sem precedentes
O neurocientista trouxe meditadores de alto nível, que vivem tipicamente no Nepal ou na Índia, alguns na França, para o seu laboratório em Wisconsin.
Usando scanners cerebrais, realizou testes avançados com os indivíduos, alcançando resultados surpreendentes e sem precedentes na ciência. Por exemplo, Davidson descobriu que as ondas cerebrais dos meditadores são realmente diferentes da média.
Talvez o achado mais notável tenha a ver com o que é chamado de “onda gama”. Todos nós obtemos ondas gama por um período muito curto. Digamos, logo quando resolvemos um problema, os cientistas podem detectar cerca de meio segundo de gama, a onda mais forte no espectro da electroencefalografia.
Já os meditadores de alto nível, que são pessoas que meditaram até 62.000 horas em suas vidas, exibem uma onda gama muito forte o tempo todo, como uma característica duradoura, não importa o que estejam fazendo.
Onda gama
Seres humanos típicos conseguem uma onda gama quando imaginam que mordem uma maçã. Por um breve período – uma fracção de segundo -, diversos estímulos, como sons, cheiros e visões se juntam naquela mordida imaginada, o que dura um momento muito curto em um electroencefalograma comum.
Já meditadores de alto nível não obtém ondas gama como um efeito de uma acção. Elas não ocorrem apenas durante a meditação, mas são o seu “normal”, ou seja, o seu estado mental quotidiano. Isso nunca tinha sido visto antes, então os cientistas não têm ideia do que significa, na prática.
Além disso, quando Davidson pediu a esses indivíduos que fizessem uma meditação sobre compaixão, seu nível de onda gama saltou 700 a 800% em poucos segundos. Esse resultado também foi inédito para a ciência.
Iluminação
De acordo com Goleman, temos que assumir que o estado especial de consciência observado nos meditadores de alto nível é muito parecido com algo descrito nas literaturas de meditação clássica séculos atrás.
Em outras palavras, deve existir um “estado de ser” que não é como o nosso estado comum.
Isso é chamado às vezes de libertação, iluminação, despertar, nirvana ou qualquer que seja a palavra.
Na realidade, como isso se parece? Segundo os próprios meditadores, é muito “espaçoso”. Você se sente bem aberto, preparado para o que vier, não importa o quê. Seja como for, é bastante notável. [BigThink]
“Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus.” (1Cor 3,22-23)
Esta meditação tão elegante, simples e bela apareceu-me quando tentava ajudar uma amiga, bastante doente, com algumas das práticas que apresentei aqui ultimamente.
Sei que não é da minha autoria, é Universal e de Todos, inclusive mais pessoas por todo o mundo a vão canalizar e divulgar.
A Meditação Arco-Íris
Visualizem-se em frente a Cristo como imagem de Jesus ou como grande luz branca. Da figura, que deve estar num plano mais elevado que nos force a levantar os olhos, sai um grande arco-íris que vai percorrer todo o vosso corpo, da cabeça aos pés. Depois, esse arco-íris, adquire uma configuração redonda em foco que vai inundar-nos de Luz colorida durante algum tempo.
Sintam a Cura, Proteção e amor que emana dessa Luz. Fiquem imersos nela e sintam a sua Paz e Tranquilidade.
Depois quando tudo cessar e o arco-íris se desvanecer dirijam-se para a grande Luz branca que é Cristo e mergulhem nela. Sintam-se a fundir lentamente nessa Luz e nesse Ser tão Puro e Amoroso.
Permaneçam nesse estado de Harmonia e Paz durante o maior tempo que puderem. A Luz e vós serão o mesmo. Vós serão Luz e a Luz será tudo o que Existe.
"Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma." João 15:5
Podem fazer (e devem) esta meditação pelos vossos irmãos em necessidade. Dedico esta meditação ao Zé para que persevere sempre, mesmo quando for tudo mais difícil.
A maior e mais importante pergunta que podemos colocar a nós mesmos é:
- Quem sou eu?
E geralmente, nessa resposta, temos tendência a identificar-nos com o ego. Mas o ego é simplesmente o que não somos.
A nossa verdadeira Natureza é pura e simples; quando temos vislumbres dela, estamos, sempre,num estado de fusão e, assim sendo, a distância entre o observador e o observado não existe.
Meditação So Ham
So Ham significa Eu Sou, em sânscrito, e é uma meditação muito poderosa embora muito simples.
Devemos colocar-nos na posição de meditação, relaxar e respirar profundamente algumas vezes libertando, ao exalar, as nossas densidades do momento.
Depois ao inalar dizemos, silenciosamente para nós mesmos, "So" e ao exalar, "Ham".
Ao fazer isto podemos focar e concentrar na luz que o nosso coração emite.
Ao terminarmos devemos dedicar o mérito da meditação à iluminação de todos os seres sencientes. Deixo-vos com um filme:
https://youtu.be/jMfQQ0UtNrs e um mantra que promove a iluminação devido a ser usado em rituais de purificação, o Vajrasattva (versão curta): Om Benza Sato Hung (Om Vajrasattva Hum) respectivamente em Tibetano e Sânscrito.
https://youtu.be/t76wBFP4ovw Dedico este post à Sofia e, com muita amizade, desejo-lhe muitas felicidades no seu ano solar.
Quando descobri o Tonglen foi como se reconhecesse um velho amigo que tinha perdido há muito tempo. Compreendi que esta prática - que foi secreta até ao século XI, e difundida a partir de então no Tibete pelo mestre Geshe Chekhawa - era muito ao estilo de Jesus Cristo.
Geshe Chekhawa entrou um dia no quarto do seu professor e viu um livro aberto que dizia:
"Entrega todos os lucros e ganhos aos outros.
E recebe para ti todos os prejuízos."
Ele não descansou até encontrar um mestre que o ensinasse esta prática de enorme compaixão. Quando encontrou um mestre adequado uma das primeiras coisas que este lhe disse foi que esta prática é indispensável para quem quer chegar ao estado de Buda.
Um dos efeitos que verificou em si mesmo foi o desaparecimento do auto-apego. Ao fim de alguns anos ele começou a ensinar apenas a alguns discípulos mas um dia decidiu por compaixão ensinar a alguns leprosos, já que naquela altura era uma doença incurável. Todavia, muitos dos leprosos curaram-se ao praticarem Tonglen.
A noticia espalhou-se e muita gente apareceu a pedir-lhe ensinamento. No entanto, Geshe Chekhawa continuava a manter a decisão de secretismo. Até que um dia, enquanto ensinava a um dos seus poucos alunos, o seu irmão, indivíduo com um caráter execrável ouviu e começou a praticar.
Geshe Chekhawa desconfiou porque viu a mudança no seu irmão e foi isto que o convenceu de que o Tonglen era para todos.
São conhecidas muitas estórias de pessoas desenganadas pelos médicos que ao praticarem o Tonglen ficam curadas tanto no corpo como na alma.
O que é preciso fazer antes da prática?
Antes de mais têm de evocar a compaixão por vós mesmos. É o mais difícil, abrir a fonte do Amor, mas uma coisa que resultou imediatamente comigo foi lembrar-me a grande, incomensurável na verdade, Compaixão que um dia alguém me demonstrou na minha infância.
Deixem que este sentimento venha aos vossos corações, transborde e vos encha de gratidão. Expandam esse sentimento a todos os seres vivos... Apliquem-no em meditação Metta Bhavana até sentirem mudanças em vós mesmos e na relação que têm com os outros.
Esta meditação é a base de toda a Compaixão pois abre os canais do Amor. Com ela compreendemos que somos todos iguais e por isso todos temos direito à felicidade.
Sogyal Rimpoche diz que quando queremos ajudar alguém muito próximo (pai, mãe, marido, etc) devemos retirar-lhe esse "papel" e vê-lo como alguém igual a nós com os mesmos desejos, receios, sofrimentos. Isso permitirá amá-lo com uma nova visão. Podemos assim ajudar melhor e a nossa relação é mais verdadeira.
Colocar-nos no lugar do outro também é uma maneira de destruir o auto-apego do ego e extravasar a vossa compaixão.
Usar um amigo para gerar compaixão é uma boa técnica porque é mais fácil sentir este sentimento por alguém que amamos. Depois transferem essa compaixão para a pessoa que querem ajudar. Isto vai dar mérito ao amigo que usarem.
Aliás qualquer destas práticas de gerar amor dá mérito a quem a pratica. No entanto, lembram-se no inicio que qualquer mérito deve ser doado a todos os seres vivos para que atinjam a iluminação?
Mateus 10:39 "Quem encontra a sua vida a perderá. Mas quem perde a vida por minha causa a achará."
Antes de iniciarem a prática, recitem, pedindo a todos os Seres iluminados e a Deus:
"Abençoai-me para que eu seja útil. Tudo o que faça, pense e sinta beneficie apenas os outros. Que eu seja um sinal de transformação do sofrimento de todos os que se aproximem de mim."
A este desejo de ajudar chama-se Bodhicitta que significa "coração da mente iluminada". Cit quer dizer consciência e Bodhi é corpo de Luz. Localiza-se no coração é aí que floresce a semente da natureza de Buda cuja raiz é o Bodhicitta.
Shantideva diz que só o Bodhicitta pode curar todo o Mundo. Elimina a ignorância, o apego, o ódio, as doenças e promove a iluminação e libertação total.
Prática Geral do Tonglen
Evocar e repousar na natureza da mente. Assim apercebemo-nos do carácter passageiro de todas as coisas.
1- Limpando a mente A primeira coisa será inalar o ar e absorver tudo o que for insalubre na atmosfera da nossa mente. De seguida, quando exalarmos, devemos criar uma calma, alegria, claridade, purificando e curando-a. 2- Auto-Tonglen Dividir-se a si mesmo em pessoa A e pessoa B. A pessoa A é compassiva, cheia de amor e sem julgamentos; a pessoa B foi magoada, sente-se incompreendida e por isso está amarga, irada e frustrada. Quando inalarem o ar imaginem que A recebe no seu coração, com todo o amor, todo o sofrimento e mágoa de B. Quando exalarem o ar imaginem A a enviar todo seu amor, conforto, confiança, felicidade e alegria para B. Este, por seu turno, tocado pela compaixão de A, abre também o seu coração dissolvendo-se toda a dor e sofrimento que possuía até então. 3- Numa situação Imaginem uma situação da vossa vida em que tenham agido mal e que por isso sintam culpa e remorsos. Quando inalarem aceitem a responsabilidade total pelos actos, sem tentar justificar o vosso comportamento. Reconheçam com sinceridade e exactidão tudo o que fizeram de mal e peçam perdão do fundo do coração. Quando exalarem emitam sentimentos de reconciliação, perdão, cura e compreensão. Este exercício pode dar-nos forças para depois falar com a pessoa em questão directamente. 4 - Tonglen para os outros Imaginem alguém a quem se sintam muito chegados, em particular uma pessoa que esteja mergulhada em dor e sofrimento. Quando inalarem, tomem para vós todo esse sofrimento e dor, com compaixão, e quando exalarem enviem-lhe cura, amor, alegria e felicidade. Agora, tal como na meditação Metta Bhavana, alarguem gradualmente o vosso circulo e e abarquem outras pessoas próximas, as que vos são indiferentes, as de quem não gostam ou têm divergências, acabando por incluir as monstruosas e cruéis. Por fim, incluam no vosso abraço, todos os seres vivos e, de facto, todos os seres sem excepção:
Os seres vivos são tão ilimitados como todo o espaço,
E que todos eles possam, sem esforço, compreender
a natureza das suas mentes,
E que todos os seres dos seis reinos, que possam ter sido, numa outra vida, o meu pai ou a minha mãe,
Atinjam em conjunto a base da perfeição primordial.
A Prática Principal do Tonglen
1 - Acalmem a mente e meditem sobre a compaixão, usando um dos métodos referidos anteriormente. Chamem todos os Budas, Seres iluminados, Bodhisattvas para que os ajudem na geração da compaixão no vosso coração.
2 - Visualizem quem querem ajudar, vejam cada um dos seus sofrimentos e das suas dores e depois quando estiverem num estado de grande compaixão para com ela, suponham que todos os seus padecimentos se juntam numa grande nuvem negra.
3 - Quando inalarem o ar visualizem que essa nuvem se dissolve no núcleo do auto-apego no vosso coração, onde destruirá os vestígios do vosso próprio ego, purificando o vosso karma negativo.
4 - Imaginem que o vosso ego foi destruído e o núcleo da mente iluminada, Bodhicitta, está exposto. Quando exalarem o ar imaginem que estão a enviar essa calorosa e brilhante Luz de Paz, alegria e felicidade e bem estar para o ser humano que sofre, e que os respectivos raios estão a purificar o karma negativo do vosso amigo.
Shantideva dizia que nessa fase o nosso corpo é transformado numa jóia incandescente concretizadora de desejos e tem o poder de dar exactamente tudo aquilo que a pessoa precisa aliviando-lhe o sofrimento e levando-a à verdadeira Realização.
5 - No momento em que a Luz do Bodhicitta sai de vós e incide no amigo que sofre, é essencial que acreditem com todo o coração que todo o karma negativo é purificado.
Continuem a inalar e a exalar visualizando o que se descreve anteriormente.
O objectivo final do Tonglen é alargar o círculo da vossa compaixão por forma a incluir todos os seres.
Nota: A ajuda aos moribundos é igual ao que foi aqui descrito na prática principal do Tonglen.
É uma e a primeira das quatro Brahma Viharas que são
meditações que desenvolvem o amor universal por todos os seres sencientes.
“Bhavana” significa “cultivo” ou “desenvolvimento” e “Metta” é uma palavra
que significa “amor”, “amabilidade” ou “amor incondicional”. Portanto, esta é
uma prática de meditação onde nós cultivamos ativamente alguns estados
emocionais muito positivos em relação aos outros e em relação a nós mesmos.
Essa prática nos ajuda a levar mais harmonia a nossas relações com as
outras pessoas, de modo que experimentamos menos conflitos, resolvemos
dificuldades existentes e aprofundamos nossas ligações com pessoas com quem já
temos uma boa relação. Ela nos ajuda a sentir mais empatia, a ter mais
consideração, gentileza e capacidade de perdoar. Nós também aprendemos a
apreciar mais os outros, concentrando-nos mais nas suas qualidades positivas e
menos nos seus defeitos.
Nesta prática de meditação, nós também cultivamos Metta em relação a nós
mesmos, de modo a sentirmos uma redução nos conflitos internos e uma maior
apreciação por nós próprios.
Cultivando as emoções
Algumas pessoas podem se surpreender e considerar estranha a ideia de
cultivar emoções na meditação. Afinal de contas, as emoções não “acontecem
simplesmente?” Elas parecem brotar dentro de nós espontaneamente e, assim como
a mudança de tempo, elas vão e vêm. Grande parte da linguagem que usamos para
falar sobre emoções sugere uma falta de controlo. Por exemplo, estamos “loucos”
de amor ou estamos “possuídos” pela raiva, ou nos sentimos “deprimidos” (quem
está fazendo a depressão?) ou nos sentimos “sobrecarregados” pelo estresse.
De um ponto de vista budista, as emoções não “acontecem simplesmente”. As
emoções são hábitos e são ativamente criadas. Elas parecem ter vida própria,
mas na verdade é porque não temos a consciência exata do modo como as criamos.
Se pudermos trazer mais atenção a nossa vida emocional, poderemos cultivar as
emoções que queremos sentir (aquelas que tornam a nós mesmos e os outros
felizes), e desencorajar o surgimento das emoções não desejadas (aquelas que
nos tornam infelizes e geram conflitos com os outros).
Nós cultivamos emoções o tempo todo. Um exemplo de como geramos emoções, de
maneira inconsciente, é o seguinte: imagine que você está com um grupo de
pessoas e vocês começam a falar sobre tudo o que está errado com o mundo: o
ódio, a guerra, a intolerância, o abuso infantil, a poluição, etc. À medida que
a conversa prossegue e que nos envolvemos mais e mais, o que acontece?
Possivelmente vamos sentir raiva, ou depressão, ou nos consideraremos os donos
da verdade. Ao nos concentrarmos em fatores que causam raiva ou depressão (sem
usar o pensamento criativo para buscar soluções possíveis para os problemas),
cultivamos essas emoções.
E se você se concentrasse em tudo o que encoraja um senso de amor e
bem-estar? É disso que trata a prática de Metta Bhavana.
Maneiras de cultivar metta – introdução
Na verdade, podemos provocar o surgimento das emoções. É somente necessário
estabelecer condições para que elas surjam e, a seguir, ver o que acontece.
É um pouco como plantar sementes. Você não pode fazer uma semente crescer.
Tudo o que você pode fazer é providenciar calor, água, solo e ter paciência.
Ao cultivar sentimentos de amabilidade nós encorajamos a nós mesmos a
desejar boas coisas aos outros. Então como estabelecemos as condições para
fazer isso?
Exercício da consciência emocional
A primeira coisa é tomarmos consciência de como estamos nos sentindo
exatamente nesse momento. Esse é o fundamento essencial para o restante da
prática de meditação.
Experimente esse exercício:
·Sente-se em silêncio e leve sua atenção para o seu corpo;
·Relaxe cada músculo à medida que tomar consciência dele.
·Traga sua atenção para área do coração e sinta quais emoções estão
presentes.
·Sorria gentilmente e perceba o que acontece.
·Lembre-se: quaisquer emoções que esteja sentindo (boas, más ou neutras) são
normais. Você pode trabalhar com essas emoções e só pode começar do ponto em
que você está.
·Quando se sentir pronto(a), volte ao mundo exterior.
Plantando as sementes da emoção
Para fazer crescer as sementes de metta, precisamos de solo e água. O solo
é a nossa consciência: precisamos manter nossas emoções em nossa consciência
para cultivar emoções positivas. Assim, enquanto na prática da Consciência da
Respiração o nosso foco são as sensações físicas da respiração, na meditação do
Amor Incondicional são as nossas emoções o nosso foco.
Mas qual é a chuva? A chuva é a variedade de métodos que podemos utilizar
para encorajar o desenvolvimento das sementes de metta. Há quatro métodos
principais que eu considero proveitosos: dirigir palavras ao coração, as
lembranças, o corpo, e a imaginação criativa.
Vamos considerar cada um desses métodos por vez. Talvez alguns deles
funcionem para você e alguns não. É melhor experimentar e ver o que é mais
adequado para a sua personalidade. Mas cuide para dar um tempo a qualquer
método que escolher, para ver se funciona. Tal como as sementes germinam em
resposta à água, pode levar um tempo para que as suas emoções comecem a se
desenvolver, em resposta ao método escolhido.
Usando palavras ou frases
Vamos supor que estamos cultivando metta em relação a nós mesmos (este é o
primeiro estágio da prática de meditação).
Usar frases é o método clássico de fazer a prática de meditação do Amor
Incondicional. Eu utilizo esse método com maior frequência do que os outros.
Não há limite para as palavras ou frases que você pode usar. A frase
tradicional para o primeiro estágio é: “Que eu esteja bem, que eu seja feliz,
que eu possa estar livre de sofrimento”.
Você deve dizer a frase para si mesmo(a) com total convicção. É preciso
lembrar também de sempre trazer o foco de volta para suas emoções durante a
meditação: você repete a frase várias vezes e observa o efeito que ela tem em
seu estado emocional. Isto vale para qualquer palavra ou frase que você utilize
(e outras frases podem ser usadas).
Dê um tempo entre cada repetição da frase, de modo que você possa absorver
o seu efeito. Muitas vezes, eu adapto a frase ao ritmo da minha respiração. Eu
digo: “que eu esteja bem” em uma expiração. A seguir, durante a inspiração, a
expiração e inspiração seguintes eu sintonizo com o meu coração para ver que
efeito a frase surtiu. Então, na expiração seguinte eu digo: “que eu seja
feliz”. Em seguida, duas expirações mais tarde: “que eu esteja livre do
sofrimento”.
Quando pensamos nessas palavras, estamos sendo ativos. Quando escutamos o
efeito que elas produziram, estamos sendo receptivos. Esta prática exige que
sejamos tanto ativos como receptivos: trabalhamos ativamente com nossas emoções
e observamos, de modo receptivo, o efeito de nossas ações.
Não é necessário usar essa frase em especial. Pode-se apenas repetir uma
palavra como “amor”, ou “gentileza” ou “paciência”. Ou podemos utilizar uma sequência
de palavras.
Usando lembranças
Novamente, vamos supor que estamos cultivando metta em relação a nós mesmos
(isto é, estamos fazendo o primeiro estágio da prática).
Recorde uma ocasião em que você se sentiu bem em relação a si mesmo(a).
Talvez, por nenhum motivo aparente, você estivesse com excelente humor. Ou
talvez tenha realizado algo significativo. Lembre-se de cada detalhe desse
momento. Quanto mais vívida for essa experiência, maior será a possibilidade de
você recuperar as emoções que sentiu naquela circunstância.
Recorde o que você vestiu, as coisas que viu, como você sustentava seu
corpo, o perfume que talvez tenha sentido, as coisas que as pessoas disseram.
Lembre-se dos detalhes: a textura de suas roupas, o brilho das coisas que
você viu, os tons de voz.
Quanto mais vívida a sua lembrança, mais fácil será experimentar novamente
as emoções que você sentiu naquele dia.
Usando o seu corpo
A maneira como sustenta o seu corpo tem um enorme efeito sobre o modo de
você sentir as emoções. Quando você está deprimido(a), seu peito afunda, seus
ombros caem, sua postura não é ereta e seu queixo tende a se aproximar do
peito. Com essa postura, é virtualmente impossível sentir qualquer coisa a não
ser depressão. Quando você está nesse estado deprimido, caído e sem esperança,
é muito difícil sentir-se bem em relação a si mesmo(a).
Por outro lado, se você mantiver seu corpo ereto (e relaxado), o peito
aberto, os ombros para trás e a cabeça alta, será muito mais fácil sentir-se
bem em relação a si mesmo(a). Será muito mais fácil sentir-se forte, confiante
e capaz. Quando você está com raiva, o seu corpo fica tenso, os seus ombros se
encolhem e os seus punhos se cerram. Mais uma vez, ao adotar esse tipo de
postura, você começará a se sentir realmente agressivo, mas se você relaxar
essa postura agressiva, vai descobrir que a sua raiva começa a abrandar. É
quase como se nossos corpos guardassem memórias.
Você pode usar esses princípios em sua meditação. Utilize sua postura para
ajudá-lo a cultivar metta, cuidando para evitar tensão ou ombros caídos. Lembre-se
como é sentir confiança, sentir-se feliz e cheio de energia. Deixe seu corpo
ajudar você a entrar nesses estados, relaxando os músculos e mantendo a coluna
reta e o peito aberto. Imagine que seu corpo está cheio de energia. Quando eu
começo a acessar a memória do meu corpo em relação a me sentir pleno de
bem-estar, muitas vezes começo a sentir uma potente energia em meus braços e
mãos.
Usando a imaginação criativa
Mais uma vez, vamos supor que estamos cultivando metta em relação a nós
mesmos (isto é, estamos fazendo o primeiro estágio da prática).
Pense em uma experiência que faria você feliz. Às vezes eu imagino que
estou mergulhando no recife australiano Great Barrier Reef. Na verdade nunca
fiz isso, mas quando imagino a sensação de vida em meu corpo, as correntes de
água quente acariciando a minha pele, a luz, vinda de cima, ondulando nos
lindos corais coloridos e os cardumes de peixes de cores vívidas, nadando ao
meu lado, eu me sinto bem.
Você pode pensar em qualquer coisa que provoque um verdadeiro e profundo
senso de alegria e bem-estar. Talvez você se imagine voando em um balão de ar
quente acima dos Andes, ou caminhando ao luar ou apenas descansando em uma
praia.
Assim como no exercício de memória, traga o máximo possível os seus
sentidos na prática e torne a sua imaginação sensorial tão vívida quanto puder.
Sendo flexível em sua maneira de abordar
Podemos usar mais de um método para cultivar o amor incondicional.
Inicialmente, inclino-me a usar lembranças, a imaginação criativa ou o
método da memória corporal na meditação Metta Bhavana para entrar em contato
com uma sensação de bem-estar; a seguir, passo para a frase tradicional: “Que eu esteja bem, que eu seja feliz, que
eu possa estar livre de sofrimento”.
Isso pode ser apenas uma preferência pessoal. Experimente diversos métodos
e veja qual funciona para você e qual não funciona.
Nem todos os métodos dão certo para cada pessoa. Experimente para ver o que
funciona.
Dê tempo a um determinado método para que ele surta efeito e tome cuidado
para não passar de um método para outro de um modo agitado, sem dar-lhe
realmente uma hipótese de funcionar.
Lembre-se que, com qualquer método, o seu foco deve ser basicamente as suas
emoções. Às vezes ficamos tão presos em nossos pensamentos e imaginação, que é
fácil ficar simplesmente pensando, ao invés de meditarmos. Esquecemos tudo
sobre o objetivo desse pensamento, que é encorajar o crescimento do amor
incondicional.
Um esboço da prática de meditação do
amor incondicional
Na prática de meditação Metta Bhavana estamos cultivando amor, amizade ou
amor incondicional. No final das contas, queremos nos tornar uma fogueira
emocional: uma chama constante de calor emocional que abraça cada ser senciente
que aparecer em nossa consciência. Esse é um objetivo alcançável para todo ser
humano. Tudo o que é necessário é tempo e algum esforço persistente.
A prática se dá em cinco estágios. Cultivamos Metta por:
1. Nós mesmos.
2. Um bom amigo(a).
3. Uma pessoa “neutra” – alguém que não desperte fortes sentimentos em nós.
4. Uma pessoa “difícil” – alguém com quem temos conflitos ou em relação a quem
sentimos má vontade.
5. Todos os seres sencientes (i.e. todos os seres capazes de sentir prazer ou dor).
Estágio Zero
O Estágio Zero é o que chamo de estágio inicial da meditação, antes dos
estágios propriamente ditos, no qual estabelecemos as condições que ajudam a
prática da meditação a prosseguir a contento.
Assim, em primeiro lugar, estabeleça a
sua postura e aprofunde a consciência de seu corpo, levando sua atenção a cada
músculo e relaxando tanto quanto for possível.
Estágio um
Cultivando metta em relação a si mesmo
“A amizade em relação a si mesmo é
fundamental, porque sem isso não conseguimos ser amigos de ninguém mais no
mundo.”
Eleanor Roosevelt
Roosevelt expressa uma verdade psicológica que a tradição budista adotou
por dois milênios e meio: que a nossa atitude em relação a nós mesmos
condiciona a nossa atitude em relação aos outros. Por esse motivo, na prática
de meditação do Desenvolvimento do Amor Incondicional começamos, em primeiro
lugar, a cultivar metta em relação a nós mesmos.
Antes de iniciar essa prática, você precisará ler (se não fez isso ainda)
as sessões sobre postura e maneiras de cultivar metta.
Depois dessa leitura, o que se segue fará muito mais sentido.
No primeiro estágio da prática, estabeleça sua postura e aprofunde sua
consciência corporal.
Depois, conscientize-se do que está sentindo. Que emoções estão presentes?
Não é necessário dar um rótulo para elas, apenas tome consciência de sua
presença.
Essas emoções serão o seu foco durante a prática. Mantenha a sua atenção
focada em suas emoções durante toda a prática. Se você ficar distraído, volte
para o seu corpo e, a seguir, para suas emoções.
Para trabalhar com suas emoções, use uma palavra ou frase, ou uma
lembrança, ou a sua imaginação. Quando trabalhar com um método específico,
fique atento ao efeito que ele surte em suas emoções, que são o seu foco.
O que deveria acontecer?
Considere o seguinte. Cada pensamento seu surte um efeito em sua maneira de
sentir. Esses efeitos são muitas vezes sutis, de modo que um pensamento pode
ter um efeito muito pouco perceptível.
Os pensamentos são como gotas de água caindo em uma pedra. Com o tempo eles
vão esculpindo profundos canais (alguns pensamentos, certamente, podem ter um
efeito emocional muito grande, mas são relativamente raros). Mas os efeitos,
dificilmente perceptíveis, de todos esses pensamentos são cumulativos. Com o
tempo, nossos pensamentos afetarão intensamente a maneira como surgem nossas
emoções.
Na maior parte do tempo, nem mesmo estamos especialmente conscientes
daquilo que pensamos, e muito menos do efeito que os pensamentos eventualmente
possam ter em nossas emoções e atitudes. Por esse motivo é tão importante
realizar a outra prática principal de meditação que ensinamos nesse site, a
Consciência da Respiração. Precisamos de atenção plena para ver como as nossas
mentes funcionam, como nossos pensamentos e emoções surgem.
Na prática de meditação do Amor Incondicional estamos cultivando mais
consciência de como os pensamentos afetam nossas emoções. De maneira
consciente, estamos encorajando palavras, frases, imagens, lembranças que terão
o efeito de reforçar as emoções positivas e enfraquecer as emoções negativas.
Isso tem um efeito em curto prazo de alterar o seu humor (você pode se
animar por um tempo) e o efeito de longo prazo de alterar a sua personalidade,
de modo que você se torna uma pessoa mais positiva emocionalmente, menos
propensa à raiva e ao desânimo e mais propensa ao amor, empatia, confiança e
contentamento.
Isso tudo leva tempo, é claro. Essas gotas terão que desbastar a pedra dos
seus hábitos arraigados. Mas funciona. Essa água que goteja é inexorável. A
água é mais forte que a pedra. Tudo o que você precisa fazer é manter gotejando
a água, através da prática diária.
Amar a nós mesmos é certo?
Amar a si mesmo não é bem visto no Ocidente. Muitas vezes associamos isso
com pessoas autocentradas, que não ligam para as outras.
Na verdade, temos uma tendência de não nos valorizar, para evitar que nos
considerem uma pessoa autocentrada.
Mas na tradição budista, que produziu inumeráveis indivíduos
excepcionalmente generosos e altruístas, há uma ênfase no desenvolvimento do
amor a si próprio como um pré-requisito indispensável para amar os outros. Na
tradição cristã podemos também lembrar que a injunção é: “ama os outros como a
ti mesmo”, dando a entender que deveríamos amar não apenas os outros, mas
também a nós mesmos.
Os budistas acreditam que se você não se ama, é difícil, se não impossível,
amar outras pessoas. E se você pensar sobre isso, talvez descubra, ou talvez já
tivesse essa suspeita, que algumas das pessoas mais egoístas que você conhece,
lá no fundo, realmente não gostam de si mesmas. O seu egoísmo é um mecanismo de
compensação. Por outro lado, muitas pessoas calorosas, generosas e amorosas são
capazes de se sentir à vontade com elas próprias, sem parecer, de modo algum,
narcisistas ou egoístas.
Se você não gostar de alguns aspectos seus, a sua tendência será não gostar
das mesmas coisas em outras pessoas. Na verdade, os psicólogos chamam de
“projeção” o seguinte processo: às vezes temos tanta aversão por alguma
característica de nossa personalidade que recusamos a admitir que ela exista
(se estiver pensando agora que só os outros fazem isso, você está projetando
neste exato momento!). Mas conseguimos ver essa mesma característica nas outras
pessoas e assim “projetamos” nelas o nosso “lado sombrio” não reconhecido.
Portanto, grande parte de nossa má vontade em relação aos outros é, na verdade,
uma aversão por nós mesmos. É evidente que se quisermos melhorar nosso
relacionamento com as outras pessoas, temos que também melhorar o nosso relacionamento
com nós mesmos.
É claro que se nossa metta começasse e terminasse com nós mesmos, não seria
realmente metta, seria egoísmo. Assim, embora o primeiro estágio da prática
inicie com nós mesmos, ela passa para os outros nos quatro estágios restantes.
É importante garantir que você faça o primeiro estágio (não o ignore – se
for difícil significa que você precisa fazer). O cosmos não vai dar a você uma
recompensa extra se você ignorar a si mesmo(a). Mas lembre-se também de fazer
os outros estágios.
E se eu achar difícil gostar de mim
mesmo?
Muitos de nós consideramos o primeiro estágio da meditação do amor
incondicional como o mais difícil, provavelmente porque nossa sociedade nos
condiciona a pensar que é ruim gostar de nós mesmos. Na verdade, temos uma
página inteira sobre esse assunto.
A primeira coisa a lembrar é a importância de aprender a gostar de nós
mesmos. Se não gostarmos de nós mesmos, nunca seremos capazes de amar os
outros. É possível também que nunca sejamos realmente felizes simplesmente porque
não valorizamos nossa própria felicidade.
Portanto nunca pule o primeiro estágio da meditação do amor incondicional.
Faça-o sempre!
Perspectivas Vantajosas
Se você começar o primeiro estágio da prática de meditação e não conseguir
sentir muita coisa, não entre em pânico. Fique calmo. É perfeitamente normal
sentir-se assim. Eu me recordo quando estava aprendendo a meditação pela
primeira vez. Comecei a entrar em desespero porque não conseguia desenvolver
nenhuma metta por mim mesmo. Mas esse é um processo lento. Ele funciona, mas
não é imediato.
Pense sobre as coisas que você faz bem.
Pense sobre realizações no passado ou no presente. Pense no que as outras
pessoas valorizam em você. Isso vai ajudá-lo(a) a perceber as suas próprias
boas qualidades.
Reflita: você quer ser feliz? Esse desejo de ser feliz é metta. É possível que
você não consiga apreciar a sua própria metta pelo excesso de familiaridade.
Portanto, talvez você sinta muita metta por si mesmo(a), mas não tenha
percebido. Às vezes temos o hábito de não ver o óbvio.
Pense sobre as qualidades que você gostaria de desenvolver; as realizações
que você gostaria de atingir no futuro. O que realmente importa para você?
Estou disposto a apostar que você consegue pensar em grandes ideais para si
mesmo(a). Se for capaz de ter ideais tão dignos, você deve ser, em alguma
medida, um indivíduo digno. Respeite isso em si mesmo(a). Se fizer isso, vai
conseguir desenvolver essas qualidades e atingir essas realizações.
Receptividade e atividade
Lançando Flores em uma Lagoa Tranquila
na Floresta
Quando você entrar em contato com suas
emoções, pense que são como uma lagoa tranquila em uma floresta. Assim como uma
lagoa, as suas emoções são vivas e vibrantes, prontas para estremecer sob menor
toque.
Estar consciente das vibrações na lagoa de suas emoções é a receptividade. Você
está sendo receptivo para tudo o que influencia as suas emoções.
Os pensamentos que você está conscientemente gerando, as palavras, frases,
lembranças, e fantasias guiadas que está utilizando na meditação do amor incondicional,
são a sua atividade. Você está usando os métodos que surtem um efeito em suas
emoções.
A atividade é como a mão que lança flores, uma a uma, na lagoa. A
receptividade é como observar as ondulações na água à medida que estas se
espalham e desaparecem.
Você pode utilizar essa imagem em sua prática. É uma analogia que irá
ajudá-lo(a) a aprofundar a sua apreciação daquilo que a prática está atingindo.
Quando eu utilizo a frase “Que eu esteja bem, que eu seja feliz, que eu
esteja livre de sofrimento”, eu gosto de “lançar” cada parte da frase em
separado, como se fosse uma flor individual. Eu lanço: “Que eu esteja bem” e
depois paro durante uma respiração completa para observar as ondulações em
minhas emoções. Depois eu digo: “Que eu seja feliz” e faço novamente uma pausa
para sentir quaisquer efeitos da frase. A seguir, faço o mesmo com “Que eu
esteja livre de sofrimento”.
Seja paciente. Pode levar tempo para você sintonizar com os efeitos da
prática. Mas à medida que você fortalece e aprofunda a sua consciência, será
capaz de sentir os efeitos em suas emoções toda vez que disser a frase “Que eu
esteja bem”.
Estágio dois
Cultivando Metta em relação a um amigo
Um amigo é, por definição, alguém cujo bem-estar é importante para nós.
Quando ele está mal isso nos perturba e quando está bem, ficamos contentes.
Portanto, um amigo é alguém por quem já sentimos metta e o que faremos na
meditação é fortalecer nossa metta.
Vale a pena pensar antecipadamente na pessoa que escolheremos como
amigo(a), para não perder muito tempo durante a meditação com indecisões.
Pense em um bom amigo e dirija os mesmos votos a ele. Decida antes quem
você vai escolher, para não ficar indeciso e perder tempo durante a prática.
Quem você escolhe como o amigo
Há algumas sugestões tradicionais em relação a quem escolher e quem não
escolher para o segundo estágio de Metta Bhavana.
Escolha alguém com mais ou menos a mesma
idade que você.
Queremos garantir que cultivamos metta e não algum tipo de sentimentalidade
(que pode ocorrer se escolhermos uma pessoa mais jovem no segundo estágio), ou
o desejo de agradar uma figura de autoridade (que pode ocorrer se escolhermos
uma pessoa mais velha).
Assim, escolha alguém de uma faixa etária próxima à sua.
Escolha alguém por quem não sente
atração sexual.
O motivo para isso é que um excesso de emoção calorosa fluindo em direção
àquele(a) amigo(a) tão atraente pode acabar se revelando uma atração sexual, ou
sentimentos românticos, ao invés de metta.
Escolha alguém que esteja vivo.
Você pode ter um amigo que já morreu e por quem sente muitas emoções
calorosas, mas podem existir também muitos outros sentimentos associados com
essa pessoa, como arrependimento, ou culpa ou tristeza. Não há nada de errado
com esses sentimentos, mas não é isso que queremos cultivar com essa prática.
Em estágios posteriores da prática você poderá incluir todas as pessoas
acima que estão sendo excluídas neste momento. Além disso, depois que tiver
feito a prática por algum tempo e sentir com mais clareza o significado de
metta, você poderá usar mais o seu próprio critério em relação a quem
escolher. Entretanto, no momento, vamos facilitar as coisas para nós e
agir com cautela.
Qual é o objetivo do estágio dois?
No segundo estágio estamos fortalecendo a metta que já sentimos pelo nosso
amigo.
A palavra metta vem de uma língua chamada páli e, nessa língua, a palavra
metta está intimamente relacionada com a palavra “amigo”, ou mitta. Um mitta é
alguém por quem você sente metta.
É importante lembrar que metta é algo
que nós já sentimos. Não é uma nova emoção jamais sentida antes. O que estamos
desenvolvendo, ou fortalecendo, é a metta que já sentimos em relação aos nossos
amigos.
Sentimos metta na vida comum quando somos atenciosos com nossos amigos, quando
desejamos que eles sejam felizes, quando nos esforçamos para que eles se sintam
mais à vontade.
Esse estágio aprofunda nossas amizades. Uma vez que nossas amizades são um
dos fatores que mais contribuem para nossa saúde e felicidade, o segundo
estágio é um passo importante em direção ao bem-estar físico e emocional.
Quais métodos eu posso usar?
Quando você evoca o seu amigo em sua mente, pode ser útil visualizá-lo com
o olho de sua mente. Imagine que ele está sorrindo e feliz.
Você pode repetir: “Que você esteja bem, que você seja feliz, que você
esteja livre do sofrimento”.Ou você pode contar ao seu amigo sobre aquilo que
aprecia em relação a ele(a).
Você pode desejar coisas específicas que
possam fazer seu amigo feliz ou reduzir o seu sofrimento. Você pode desejar que
seu amigo esteja livre de dívidas, ou que aprenda a estimar a si mesmo, por
exemplo.
Você pode desejar recordar um momento em que estavam juntos e se sentiam
particularmente próximos. Lembrar disso ajudará a fortalecer os sentimentos que
você nutre por ele(a).
Você pode convidá-lo(a) para participar de sua visualização criativa:
leve-o para um mergulho submarino no recife australiano, ou para uma fonte de
água quente natural, nas montanhas.
Estágio três
Cultivando metta em relação a uma
“pessoa neutra”.
Nesse estágio da prática de meditação cultivamos metta, ou o amor
incondicional, em relação a alguém que não inspira nenhum sentimento forte em
nós. Não se trata de um amigo(a), nem de alguém com quem tenhamos dificuldades.
Simplesmente nos sentimos neutros em relação a essa pessoa.
A maioria das pessoas em nossas vidas pertence a essa categoria. Quando
caminhamos na rua de uma cidade ou entramos em uma loja repleta de gente,
encontramos tanta gente que nossas emoções ficam em um estado neutro e,
virtualmente, ignoramos essas pessoas.
A vida é simplesmente repleta de demasiadas pessoas, para que tenhamos um
relacionamento emocional real com todas as que encontramos e, muitas vezes, as
pessoas que não conhecemos não parecem reais para nós, pelo fato de nunca
termos nos relacionado com elas.
Assim, nessa prática nós aprendemos a levar mais a sério o bem-estar e o
sofrimento daqueles seres que habitualmente ignoramos e com quem não
conseguimos nos relacionar.
Chame à sua mente alguém
com quem você tenha pouca ou nenhuma conexão emocional. Talvez seja uma pessoa
que você viu trabalhando em uma loja, ou alguém que passou por você na rua.
Não importa se existir algum sentimento. O principal é que você nem realmente
goste nem realmente desgoste dessa pessoa.
Uma vez que tiver evocado essa pessoa, deseje que ela esteja bem, usando
palavras ou frases ou a sua imaginação.
Porque temos esse estágio?
Podemos ter muitos amigos. Talvez existam algumas pessoas com quem não nos
relacionamos bem. Mas as pessoas que existem no mundo, em sua grande maioria,
são pessoas “neutras”, isto é, não temos nenhuma emoção intensa positiva ou
negativa em relação a elas.
Às vezes, essa neutralidade acontece simplesmente porque ainda não
conhecemos alguém. Outras vezes, (especialmente no Ocidente) trata-se de um
hábito cultural.
A maioria de nós, ocidentais, vive em grandes cidades. Na época em que
grande parte das pessoas vivia em aldeias, todo mundo se conhecia. É possível
que os indivíduos gostassem de algumas pessoas e não gostassem de outras. Se
vissem alguém desconhecido, talvez ficassem muito interessados e desejosos de
conhece-lo(a), mas talvez ficassem desconfiados, dependendo do momento e das
circunstâncias.
Atualmente, entretanto, vemos centenas ou talvez milhares de pessoas nas
ruas, nos carros, em restaurantes, nos ônibus e nas lojas. Não podemos dizer
“oi” para todo mundo. Então colocamos nossas emoções no modo neutro, como um
tipo de mecanismo de defesa.
É possível que essa seja uma resposta saudável em uma situação extrema, mas
você já percebeu como ficamos incapazes de sair do modo neutro?
O que acontece quando estamos em um elevador ou sentamos ao lado de alguém
em um avião? Muitas vezes tentamos fingir que as pessoas ali não existem. Mesmo
quando alguém está nos servindo em uma loja (na verdade, está nos ajudando!)
nós podemos nos comportar em relação a essa pessoa como se ela fosse alguma
máquina de vender automática.
Na verdade, acontece que ficamos atolados no estado neutro. Podemos ficar
enredados dentro de nós mesmos e às vezes sentir medo de sermos humanos. E essa
neutralidade pode facilmente se transformar em negatividade. Podemos ficar
frustrados e zangados quando uma fila em uma loja parece estar se movendo muito
devagar. Podemos tratar com grosseria o vendedor(a) mesmo que ele já se sinta
sob pressão.
Isto é desagradável para nós dois.
No terceiro estágio da Metta Bhavana, estamos aprendendo a sair do modo
neutro. Estamos resgatando nossa plena humanidade.
Estamos ousando sentir. Estamos nos conectando novamente com outro ser
humano como um ser sensível. Estamos sendo respeitosos.
Estamos mostrando solidariedade com outros seres que sofrem.
Maneiras de trabalhar no estágio três
Muitos dos métodos usados nos primeiros dois estágios também podem ser
usados no terceiro. Você pode simplesmente chamar à mente a pessoa neutra,
visualizá-la com seu olho mental, feliz e sorridente, e desejar-lhe que esteja
bem. Você pode usar palavras ou frases para fazer isso.
Você pode utilizar a sua imaginação e compartilhar com a pessoa neutra
alguma experiência maravilhosa. Você também pode utilizar a sua imaginação para
visualizar que vocês se conhecem na vida real, mas dessa vez você se
visualizará agindo de um modo mais amigável do que o habitual.
Não é incrível? Os seres humanos são as formas de vida mais complexas do
planeta. Nós temos uma experiência de nós mesmos e do mundo mais rica e
multifacetada do que qualquer outra criatura que conhecemos. Não obstante,
deixamos passar despercebidos uns aos outros com muita frequência. Pense em
alguém que você sempre vê, mas em quem nunca pensa muito. Essa pessoa tem uma
vida rica, desconhecida, misteriosa. O que a faz vibrar? O que ela faz depois
do trabalho? Será que ela tem uma família? Qual foi o último livro que ela leu?
Que sonhos e ambições ela tem? Ela gosta de seu trabalho? Você pode
simplesmente desenvolver um senso de curiosidade e assombro com tudo isso.
Eis uma outra coisa que você pode tentar: se você conseguiu dar início a
uma atitude emocional de metta nos dois primeiros estágios, você pode
simplesmente incluir a pessoa neutra nessa atitude. É como se tivesse acendido
uma fogueira e pudesse apenas convidar a pessoa neutra a vir se aquecer também.
Não consigo encontrar uma pessoa por
quem meus sentimentos sejam neutros
Algumas pessoas são especialmente sensíveis emocionalmente às outras. Se
esse for o seu caso, talvez perceba que tão logo você evoca alguém à sua mente,
já começa a sentir alguma coisa em relação a essa pessoa.
Isso é ótimo! É uma vantagem e tanto ter essa receptividade. Essa qualidade
tornará mais fácil para você a prática de Metta Bhavana.
Não se preocupe se sentir que não consegue encontrar uma pessoa neutra.
Lembre-se apenas de não escolher nem um amigo nem um “inimigo”. Apenas escolha
alguém que não inspire nenhuma emoção particularmente forte em você, seja
positiva ou negativa. Você pode escolher alguém que mal conhece, talvez um mero
conhecido ou uma pessoa que trabalha em uma loja que você frequenta.
É difícil sentir intensamente em relação
a uma pessoa neutra?
Sim, pode ser difícil desejar felicidades a uma pessoa que você não
conhece. Pelo fato de essa pessoa não existir realmente para nós como um ser
emocional, não há muito o que resolver nesse sentido. A pessoa neutra pode ser
tão imprecisa como a areia que escorre pelos nossos dedos.
Mas com a prática isso pode mudar. Prossiga com a prática e você descobrirá
maneiras de trabalhar nesse estágio. Entretanto, é importante lembrar que não
estamos tentando fazer alguma coisa acontecer. Estamos pacientemente trabalhando
com a ausência de emoções, se for isso que estiver acontecendo.
Nosso problema inicial pode ser a expectativa. Nós esperamos que a prática
de Metta Bhavana seja uma exibição de fogos de artifício emocionais. O problema
é que no terceiro estágio descobrimos que nossos fósforos estão húmidos! Então,
acostume-se com o fato de que esse estágio pode levar tempo para se
desenvolver. Cultive um senso de aceitação de que a mudança virá em seu próprio
tempo se você continuar trabalhando com persistência e gentileza.
Acostume-se a apenas sentar com a imagem da pessoa neutra, enquanto repete
a frase: “Que você esteja bem, que você seja feliz, que você esteja livre de
sofrimentos”. De tempos a tempos, você pode interromper isso e experimentar
algumas das ideias encontradas na página que trata do “terceiro estágio como um
ensaio”.
Você pode ficar tentado a continuar mudando de pessoa neutra até encontrar
alguém mais interessante (isto é, não realmente neutra!) Talvez seja melhor
permanecer com a mesma pessoa neutra por algumas sessões de meditação para dar
a si próprio tempo de desenvolver um maior sentimento por ela.
Estágio quatro
Cultivando metta em relação a uma
“pessoa difícil”.
Nesse estágio da meditação nós chamamos à mente, de modo deliberado, alguém
com quem tenhamos algum conflito e fazemos votos para que essa pessoa esteja
bem. Isso pode incluir desde uma mera irritação com alguém até um conflito
profundo.
Aqui estamos indo de encontro à nossa má vontade. Metta, ou o amor
incondicional, é o oposto emocional da má vontade. Assim, estamos de maneira
consciente evocando a imagem de uma pessoa em relação a qual geralmente
reagimos com aversão, e o nosso objetivo é o de superar as nossas reações
habituais. Isto não significa que cultivaremos a má vontade para poder lidar
com ela! É suficiente chamar à mente alguém com quem tenhamos dificuldades e
fazer votos para que ele(a) esteja bem.
A seguir nós cultivamos metta por alguém com quem não nos damos bem. Talvez
nossas dificuldades com essa pessoa venham de longo tempo, ou talvez seja um
amigo(a) que no presente momento tenha despertado a nossa irritação.
Chame a pessoa difícil à sua mente e seja honesto acerca do que você sente.
Talvez exista um sentimento de desconforto. Perceba qualquer tendência sua de
pensar mal dessa pessoa, ou de aprofundar o seu conflito com ela (por exemplo,
entrando em discussões imaginadas), e abra mão dessas tendências.
Ao invés disso, dirija a ela votos de felicidade: “Que você esteja bem, que
seja feliz, que esteja livre de sofrimentos”.
Há alguém que eu não deveria escolher?
Em última instância, queremos desenvolver Metta por todos os seres
sensíveis. Mas há algumas categorias de pessoas que, de forma geral, deveriam
ser evitadas no quarto estágio, e algumas que talvez devam ser evitadas nesse
estágio enquanto você ainda estiver aprendendo a prática.
Evite Totalmente
Não use pessoas que você não conhece pessoalmente. Pode ser tentador usar
um “bicho-papão” como Hitler, ou Saddam Hussein (dependendo de nossas
inclinações pessoais). É muito mais proveitoso ficar com as pessoas que
realmente conhecemos.
Você pode incluir o “bicho-papão” no último estágio da prática, momento em
que desejamos que todos os seres sejam felizes.
Deixe para Depois
Se houver alguém que você não consegue trazer à mente sem ficar muito
irritado (triste ou bravo), talvez seja porque essa pessoa causou muito mal a
você e provavelmente é melhor deixá-la de lado por enquanto. Fazer a prática da
Metta Bhavana vai ajudar você a desenvolver confiança para lidar com as suas
reações em relação a essa pessoa. Vamos manter a prática mais ou menos simples,
por enquanto, e retornaremos a essa pessoa depois.
Quando penso em um inimigo sinto raiva
dele
Você pode ter lido em algum lugar que a meditação conta com o fato de
existir uma brecha entre estímulo e resposta e que (supondo que estamos
conscientes) podemos fazer escolhas nessa brecha. Podemos escolher como iremos
responder em qualquer situação dada. A psicologia budista faz uma interessante
distinção entre sentimento e emoção, e essa distinção lança alguma luz na
brecha.
Sentimento
Nós tendemos a usar as palavras “sentimento” e “emoção” mais ou menos da
mesma maneira, mas na psicologia budista o sentimento se refere aos nossos
gostos e aversões básicos, viscerais. Os sentimentos basicamente são de três
tipos: agradáveis, desagradáveis ou neutros.
Essas respostas são automáticas, ou seja, não temos nenhum controle sobre
elas. Há algumas coisas em algumas pessoas de que simplesmente não gostamos, em
um determinado momento (entretanto, nossos gostos e aversões podem mudar com o
tempo).
Emoção
A emoção, por outro lado, refere-se às respostas ativas que surgem com base
nos sentimentos. Com base em um sentimento desagradável, podemos fazer surgir a
má vontade (que é uma emoção). Quando não estamos sendo conscientes, essas
respostas emocionais surgem automaticamente. Entretanto, quando temos
consciência, podemos ter escolha acerca de como vamos responder.
Quando você evoca na sua mente uma pessoa difícil, poderão surgir muitas
associações desagradáveis relacionadas a essa pessoa. Isto faz surgir
sentimentos desagradáveis.
Então uma, entre duas coisas, pode acontecer. Se perdermos nossa atenção, é
provável que a resposta emocional da má vontade surja, com base naqueles
sentimentos desagradáveis.
Entretanto, se mantivermos nossa atenção, teremos opções. Podemos escolher
sentir os sentimentos desagradáveis que surgem espontaneamente, e podemos
escolher desejar o bem àquela pessoa.
Aprendendo a ficar confortável com o
desconforto
Uma coisa importante a lembrar é que as coisas que parecem desagradáveis
não são necessariamente “negativas”. Um exemplo é sentir vergonha. Sentir
vergonha não é uma experiência agradável (é uma experiência desagradável), mas
é considerada positiva em termos psicológicos budistas, porque é uma emoção
baseada em uma sensibilidade ética.
E nem tudo que é agradável é positivo, obviamente. É possível sentir prazer
com a falta de delicadeza e a indelicadeza é um estado emocional negativo.
Uma das coisas que temos que aprender na meditação é sentir-nos
confortáveis em meio ao desconforto, de modo que não reagimos de modo
inapropriado e não criamos estados emocionais negativos que apenas levarão a
mais sofrimento no futuro.
Abrindo mão da má vontade
De qualquer maneira, voltando a você e àquela pessoa difícil… tomar
consciência dessa distinção entre sentimento e emoção permite que nos sintamos
confortáveis em meio ao desconforto de sensações desagradáveis, sem dar surgimento
à má vontade. Quando a má vontade de fato aparecer, tome consciência disso e
escolha abrir mão dela. Com prática, a nossa atenção plena só tenderá a se
fortalecer e nossas emoções positivas, a se desenvolver e desabrochar.
Por que eu devo desenvolver metta por
uma pessoa má?
Há algumas pessoas muito más no mundo. Às vezes a palavra mal não parece
forte o suficiente para algumas das ações perpetradas, e você pode muito bem se
perguntar porque desenvolver metta em relação àqueles que cometem más ações.
Metta é um estado de amor pelos outros. É um estado de consciência empática
que provoca compaixão, consideração e gentileza. Se aquelas pessoas más
sentissem metta, não fariam as coisas que deploramos tanto. Atos de maldade vêm
de uma falha de empatia.
Faz sentido então que, se quisermos que o mundo seja um lugar melhor, vamos
desejar que todos os seres experimentem metta, mesmo os que são maus. Na
verdade, especialmente os que são maus, uma vez que se as pessoas más sentissem
metta, não causariam o mal. Não estou sugerindo que seja possível transformar
pessoas más em boas pelo mero desejo de que isso aconteça, mas simplesmente que
é racional querer que aqueles que cometem o mal se libertem dos estados mentais
nocivos conducentes às suas ações. Isso implica que deveríamos ter compaixão
até mesmo por aqueles que cometem más ações.
Uma aluna minha de meditação, que é psicoterapeuta, mencionou para mim que
a maioria das ações que rotularíamos de más são cometidas por pessoas que
sofrem da chamada Desordem da Personalidade Anti-social e que as pesquisas
científicas mostram que até 75% que todos os envolvidos no sistema de justiça
criminal norte-americano entram nos critérios de diagnóstico dessa desordem de
personalidade.
É quase certo que essa desordem tenha um componente genético, de modo que
muitas pessoas más nasceram assim (e não se tornaram assim), embora seja quase
certo que ambientes de pobreza pioram esses traços genéticos. Muitas pessoas,
ao cometer más ações, estão, portanto, passando adiante os resultados de uma
doença da qual sofrem: uma doença que as impede de sentir empatia, remorso e
ansiedade,
Além disso, elas podem se sentir obrigadas a mentir, mesmo quando não for
necessário, têm dificuldades de aprender com a experiência passada e têm
dificuldades em controlar seus impulsos da forma como muitas pessoas fazem.
O Mal enquanto uma doença
Não há nenhum motivo pelo qual deveríamos nos sentir menos solidários em
relação a um criminoso que, por causa de um defeito genético, tem uma
capacidade menor do que a normal de controlar seus impulsos do que em relação a
uma pessoa com qualquer outra condição física ou mental com base genética.
Se pudermos sentir simpatia por uma pessoa que sofra de, por exemplo,
Síndrome de Down, então por que não cultivar simpatia na meditação por alguém
que tenha alguma desordem genética como a Desordem da Personalidade Anti-social,
que arruína a vida não apenas de quem sofre diretamente dela, mas também das
pessoas que têm a má sorte de ser exploradas ou prejudicadas por elas?
Fazendo um comentário à parte, eu espero (embora eu não tenha nenhuma
experiência pessoal na qual basear essa esperança) que as pessoas que sofrem da
Desordem da Personalidade Anti-social sejam capazes de aprender a controlar
seus impulsos. Alguns profissionais da saúde mental demonstraram que a terapia
individual e grupal pode ajudar os que sofrem dessa condição devastadora a
aprender a sentir e lidar com suas emoções e a aprender a ter mais preocupação
moral com as outras pessoas.
Não quero dar a impressão de estar dizendo que aqueles que agem
destrutivamente deveriam ser absolvidos de toda responsabilidade pelos seus
estados mentais e ações. Simplesmente, nem todas as pessoas começam do mesmo
lugar a aprender a assumir essa responsabilidade e é proveitoso para elas e
para nós se tivermos simpatia pelos que estejam nessa posição infeliz.
Mas você pode muito bem perguntar: como o ato de fazer metta bhavana em
relação a uma pessoa má vai ter qualquer efeito sobre ela? Não é simplesmente
um jogo que acontece dentro de sua cabeça?
É verdade que a sua prática de meditação provavelmente não terá muito
efeito na outra pessoa (embora nunca se sabe, pois segundo algumas pesquisas
interessantes realizadas, isso acontece), mas no mínimo ela terá um efeito
sobre você. Ela irá ajudá-lo a se tornar mais verdadeiramente compassivo. Irá
reduzir a quantidade de intolerância e ódio no mundo ao reduzir a quantidade de
intolerância e ódio no seu próprio coração (que é o único local que você pode
certamente afetar).
Estágio cinco
Cultivando Metta em relação a todos os
Seres Sencientes
Nesse estágio da meditação desenvolvemos um senso de expansividade em
nossos votos de felicidade. Embora em estágios anteriores tenhamos dirigido
nosso amor incondicional para uma pessoa, nos agora incluímos muitas pessoas, e
não apenas as pessoas mas todos os seres capazes de sofrer e sentir felicidade.
Então, no último estágio da prática, disseminamos nossos votos de bem-estar
aos outros, em círculos cada vez mais amplos.
Inicie com você mesmo, seu amigo, a pessoa neutra e a pessoa difícil.
Visualize vocês quatro juntos, e deseje o bem-estar de todos. Tente incluir
todas as quatro pessoas igualmente, e note a tendência ao favoritismo, quando desejamos
mais felicidades ao amigo do que aos outros.
A seguir, expanda seus votos de felicidades a ponto de incluir círculos
cada vez mais amplos, até desejar que todos os seres sencientes estejam bem e
sejam felizes.
Maneiras de trabalhar com o quinto estágio
Todos os seres sencientes… é muita gente
(e não só as pessoas: “seres sencientes” incluem todas as formas de vida
capazes de sentir dor ou prazer). Como desenvolver sentimentos de metta por
todos os seres?
No quinto estágio estamos trabalhando para desenvolver metta como uma atitude
aberta de amor. É como se fôssemos um sol ardente de emoção positiva que aquece
todos os seres. Estamos nos preparando para sermos tão radiantes que todo
aquele que aparecer em nossa experiência será recebido com metta: com amizade,
calor e cuidado. Isso pode soar como uma obrigação difícil, mas pense naqueles
dias quando, por alguma razão, você se viu dono de um bom humor inabalável e
nada parecia capaz de perturbá-lo. Esse é o tipo de estado que estamos querendo
encorajar, só que queremos que seja assim o tempo todo, não apenas em dias
especiais.
As quatro direções
Os monges budistas eram tradicionalmente encorajados a caminhar em toda
parte irradiando metta nas quatro direções do espaço. No quinto estágio você
pode ou apenas imaginar que está enviando metta em todas as direções, ou pensar
acerca de cada direção geográfica e desejar que todos os seres naquela direção
estejam bem e felizes.
Mantendo o mundo em seu coração
Você pode imaginar que tem o mundo envolvido pelo seu coração e cuidar bem
dele.
Fazendo um tour mundial
Você pode deixar que cenas do mundo
inteiro venham à sua mente e desejar felicidade às pessoas que você vir nessas
cenas.
Você não precisa se limitar a lugares que conhece. Você deve ter visto muitas
partes do mundo na televisão, em revistas e no cinema.
Estabelecendo uma rede
Você pode evocar em sua mente as pessoas que você conhece no mundo todo.
Pode imaginar sua metta fluindo até elas e, através delas para todas as pessoas
que elas conhecem, e assim por diante.
Lembrando os que não são humanos
Você pode se lembrar de incluir os
animais também!
E não há necessidade de parar no planeta Terra. Você pode enviar sua metta
através do universo, a quaisquer seres sencientes que possam existir ali.
Entrando em contato com as emoções
Se tentarmos entrar em contato com nossas emoções da maneira errada, isso
pode tornar mais difícil entrar em contato com elas.
Lembro-me de uma vez em que eu estava conduzindo um retiro e um jovem veio
até mim após uma sessão de Metta Bhavana. Ele parecia bem preocupado e disse:
“Sabe, fiquei realmente perturbado durante a última Metta Bhavana porque
não conseguia descobrir o que eu estava sentindo”.
Eu disse: “Você estava se sentindo perturbado”.
Ele disse: “Sim, eu realmente estava!”, Como se eu tivesse resolvido algo
realmente difícil.
Foi curioso, ele disse-me como se havia sentido, mas pensava que não sabia
o que estava sentindo. Era como se ele estivesse procurando suas emoções no
lugar errado.
Na Grã-Bretanha, o meu lugar de origem, são encenados alguns shows no
Natal, chamados de Pantomimas. Eles são realmente ritualizados (o que é parte
da festa) e um dos rituais é que, em certo momento, o “vilão” (o Lobo, ou o
Xerife de Nottingham, ou quem quer que seja) está parado de modo ameaçador
atrás do herói. O herói faz uma pergunta do tipo: “Onde estará aquele lobo
grande e mau?” e todas as crianças (e grande parte dos adultos que também
apreciam essas coisas, mas não querem admitir) gritam: “Atrás de você! Atrás de
você!”
O herói então vira o corpo muito, muito devagar, mas o vilão também se
movimenta à sua volta exatamente no mesmo momento. Então o herói se volta para
o público (enquanto o vilão se movimenta ao mesmo tempo) e diz: “Onde vocês
disseram que ele estava?” E isso prossegue por algum tempo.
Às vezes, procurar pelas nossas emoções é um pouco assim. Fazemos um
esforço tão desajeitado para encontrá-las que nunca conseguimos obter um
vislumbre delas. Encontrar emoções requer simplesmente que estejamos receptivos
e abertos. Esse tipo de receptividade começa com a consciência corporal (ver a
sessão sobre postura para maiores detalhes). Se ficarmos mais conscientes de
nossos corpos e relaxarmos, será muito mais fácil tomarmos consciência daquelas
partes mais sutis de nós mesmos, como os nossos sentimentos e emoções.
Famílias e amantes
Você se lembra quando aprendemos o segundo estágio da prática metta bhavana
e eu disse que não era uma boa ideia usar os amantes e os filhos ou pais no
lugar do amigo? Havia motivos muito bons para isso, mas percebi que ao excluir
essas pessoas no segundo estágio nós podemos muitas vezes esquecer totalmente
delas em nossa prática de metta bhavana. Isso é realmente lamentável.
Esses relacionamentos próximos e cotidianos são o verdadeiro fundamento
para nossa prática de metta. Nossos relacionamentos com nossos pais, filhos e
esposos ou amantes são geralmente os mais importantes em nossas vidas. Aqueles que
são mais próximos de nós se tornam, em certo sentido, uma parte de nós. Todos
percebemos isso com nossos pais quando começamos a descobrir (muitas vezes com
um choque) como somos parecidos com eles. Creio que o mesmo é verdadeiro em
relação aos nossos filhos e parceiros.
E você já notou como as pessoas (tudo bem, estou falando sobre você e sobre
mim) tendem a comportar-se de modos diferentes em relação aos que lhes são mais
próximos? Por sentirmos que nossas famílias não são completamente separadas de
nós, tendemos a nos comportar em relação a elas de modos que nem
consideraríamos em relação a outras pessoas, como colegas ou amigos. Amantes
brigam e insultam uns aos outros em público de maneiras extraordinárias, e os
pais falam com seus filhos de uma maneira igualmente bizarra.
É claro que percebemos que muitas vezes, lá no fundo, esse comportamento é
um produto da intimidade que sentimos. Nós baixamos a guarda e renunciamos a
nossas inibições sociais com aqueles que são mais próximos. Isso tem seu lado positivo,
e também o seu lado sombrio. Parece-me que a maneira pela qual nos relacionamos
com as pessoas próximas de algum modo espelha a maneira como nos relacionamos
com nós mesmos, e que nossas relações com nossas famílias e parceiros é uma
janela que mostra o modo como nos comportamos em relação a nós mesmos.
Por esse motivo, creio ser essencial que lembremos de evocar nossa família
e parceiros durante a prática de metta bhavana. O quinto estágio é o momento
ideal para fazer isso (a menos que você tenha um conflito com alguém; nesse
caso, pode desejar situá-lo(a) no quarto estágio). Talvez você possa fazer
votos de felicidade para a sua família imediatamente depois da fase das quatro
pessoas juntas e antes de começar a expandir sua metta para o mundo mais amplo.
Metta e o divino
Creio que estamos conscientes de apenas uma parte minúscula de nós mesmos.
A parte consciente de nós mesmos é apenas o topo do iceberg e a maior parte de
nós mesmos encontra-se sob as ondas. Parte desse inconsciente é infantil e, até
mesmo, bastante desagradável. Mas as partes mais profundas têm uma sabedoria
que mal percebemos. Nossas mentes conscientes raramente apreendem essa
sabedoria, embora às vezes ela apareça através de sonhos ou de momentos nossos
particularmente intuitivos. Ou seja, quando a barreira entre o consciente e o
inconsciente encontra-se especialmente permeável.
Há momentos em que sentimos nosso
subconsciente profundo e sábio, mas não o sentimos como um “eu” e por isso nós
o experimentamos como o “outro”. Assim, podemos sentir uma presença gentil,
amorosa, sábia ou até mesmo ter uma visão, ou ouvir uma voz que nos guia.
Considero que essas são experiências do “divino”.
Uma de minhas alunas descreveu uma experiência desse tipo ao dizer:
“Quando eu estava descrevendo a experiência que tive há cerca de uma semana
atrás, quando eu senti uma forte presença benevolente, você mencionou que o
sentimento de metta pode ser externo ou interno. Isso realmente me
impressionou, porque naquela ocasião eu não exprimi de fato o quanto era
externo o sentimento. Realmente parecia haver uma presença muito forte à minha
frente, gerando um senso profundo de compaixão, conforto e amor.
“Para ser honesto, pensei comigo mesmo que eu estava na presença de Deus.
Eu achava que não havia muito lugar para esse tipo de experiência no pensamento
budista, portanto não sabia o que pensar, embora certamente não quisesse
descartar o que aconteceu.”
Esse tipo de experiência não é incomum na meditação. De fato, ela forma a
base de alguns tipos de práticas de meditação. As práticas budistas de
visualização são uma tentativa de integrar as qualidades de sabedoria,
compaixão e energia desobstruída, através da contemplação de formas simbólicas
que, em certo sentido, correspondem àquelas qualidades (que já estão presentes
em nós, mas são ainda não realizadas).
Portanto, ao visualizar a forma compassiva de uma imagem de Buda, estamos
realmente evocando na mente nossa própria compaixão em potencial e, portanto,
criando um canal do inconsciente para o consciente. Finalmente, um tipo de
integração pode ocorrer, de modo que o meditador e a figura visualizada se
fundem. Assim, nesse tipo de prática é muito comum sentir um senso de metta, ou
outras bênçãos, fluindo a partir de “fora” de nós mesmos.
No budismo, as distinções que fazemos entre interno e externo não tem real
validade. Essa distinção é apenas uma ficção conveniente, que possibilita
criarmos um certo sentido em nossas vidas (embora não seja sempre um sentido
muito exato). Podemos ver isso se refletirmos na experiência comum de nos
apaixonarmos e desapaixonarmos. Quando você se apaixona por alguém, considera a
pessoa maravilhosa. Às vezes tudo dá certo, mas outras vezes descobrimos que
ela não era exatamente a pessoa que pensávamos que fosse, e então nos desapaixonamos.
A pessoa não mais parece ter todas aquelas qualidades maravilhosas que
imaginávamos nela.
Assim onde estavam todas aquelas qualidades? O que nos atraía? Obviamente,
em tais casos, nossa atração não era inteiramente pela outra pessoa, mas por
alguma parte inconsciente de nós mesmos que imaginávamos estar nela.
Confundimos algo que estava dentro de nós mesmos com algo que estava fora de
nós.
Nossos mundos interno e externo na verdade existem em interdependência e
não enquanto realidades separadas. Mude um deles e você mudará o outro. Assim,
a experiência de metta pode não ser nem interna nem externa, nem as duas
coisas, nem algo diferente do que é interno ou externo. É realmente algo
extremamente indefinível. O importante é que funciona. Quando penso em termos
do “divino” não considero que as experiências de uma fonte externa de metta
estejam emanando de uma deidade. Uso esse termo para sugerir um senso de
mistério- um senso da maneira pela qual podemos experimentar a nós mesmos como
“outro”, e o modo pelo qual podemos conectar com as forças ocultas que habitam
nossas profundezas.
Se esse tipo de experiência ocorre com você, você provavelmente vai
categorizá-la em termos do seu sistema de crenças existente. Algumas pessoas,
ao experimentar um senso externo de metta, dirão que essa é uma experiência de
Deus. Tais descrições podem certamente trazer um senso mais profundo de
relevância e significado para a sua prática de meditação. Por outro lado, você
pode desejar apenas aceitar essas bênçãos e refletir no fato de que realmente
não sabemos praticamente nada sobre nós mesmos e sobre o universo em que
vivemos.
Você pode desejar apenas sentir e aceitar a natureza misteriosa e inefável
dessas experiências e reconhecer que está chegando a uma apreciação mais plena
na natureza da Realidade.
Recapitulando a
meditação Metta Bhavana em 5 estágios:
Estágio Zero
Iniciamos, como sempre,
desenvolvendo a consciência corporal e entrando em contato com as nossas
emoções. O Estágio Zero, como você já sabe se estiver trabalhando
sistematicamente através desse guia, é o estágio inicial da meditação, antes
dos estágios propriamente ditos, no qual estabelecemos condições que ajudam a
prática da meditação a prosseguir adequadamente.
No estágio zero, você primeiro
estabelece a sua postura e aprofunda a consciência do seu corpo, levando a sua
atenção para cada músculo e relaxando-o tanto quanto possível. Em caso de
dúvidas em relação à postura de meditação, consulte nosso workshop sobre
postura.
Estágio 1
Após ter desenvolvido uma
consciência maior do corpo, tome consciência de suas emoções, levando a sua
atenção ao coração, e aceitando quaisquer emoções encontradas; depois comece a
fazer votos de felicidade a si mesmo(a). Você pode utilizar qualquer um dos
métodos de cultivo do amor incondicional esboçados nas sessões anteriores deste
guia de meditação.
Quando tiver passado de 5 a 10
minutos desejando metta a si mesmo(a), passe para o segundo estágio.
Estágio 2
No segundo estágio da prática de
meditação pense em um bom amigo, ou amiga, e dirigindo-lhe seus votos de
felicidade. Decida antecipadamente quem você vai escolher, senão você pode
perder tempo com a indecisão durante a prática.
Estágio 3
A seguir, leve à mente alguém com
quem você tenha pouco ou nenhuma conexão emocional. Talvez seja alguém que você
viu trabalhando em uma loja, ou que passou por você na rua.
Não importa se existir algum
sentimento. O principal é que você não sente nem amor nem aversão por essa
pessoa.
Quando tiver chamado essa pessoa
à mente, deseje-lhe felicidades, usando palavras ou frases, ou a sua
imaginação.
Estágio 4
A
seguir, cultivamos metta por uma pessoa com quem tenhamos conflitos. Talvez
seja uma pessoa com quem nos damos mal há muito tempo, ou um amigo em relação
ao qual estejamos sentindo uma irritação momentânea.
Evoque na sua mente a pessoa difícil e seja honesto(a) em relação ao que sente.
É muito provável que haja sentimentos desconfortáveis. Perceba qualquer
tendência existente em você de pensar mal dessa pessoa, ou de aprofundar o
conflito que você tem com ela (por exemplo, imaginando discussões com ela) e
abra mão mentalmente dessas tendências.
Ao invés disso, deseje-lhe o bem:
“Que você esteja bem, que você seja feliz, que você esteja livre de
sofrimento”.
Estágio 5
Então, no último estágio da
prática, disseminamos nossos votos de bem-estar aos outros, em círculos cada
vez mais amplos.
Inicie com você mesmo, seu amigo,
a pessoa neutra e a pessoa difícil. Visualize vocês quatro juntos, e deseje o
bem-estar de todos. Tente incluir todas as quatro pessoas igualmente, e note a
tendência ao favoritismo, quando desejamos mais felicidades ao amigo do que aos
outros.
A seguir, expanda seus votos de
felicidades a ponto de incluir círculos cada vez mais amplos, até desejar que
todos os seres sencientes estejam bem e sejam felizes.
*****
Frases usadas comumente nesta meditação
8 frases tradicionais
1.Que ____ seja feliz.
2.Que ____ não sofra.
3.Que ____ encontre as
verdadeiras causas da felicidade.
4.Que ____ supere as
causas do sofrimento.
5.Que ____ supere toda
ignorância, carma negativo e negatividades.
6.Que ____ tenha
lucidez.
7.Que ____ tenha a
capacidade de trazer benefício aos seres.
8.Que ____ encontre
nisso a sua felicidade.
OBS: O traço ___ é o local onde se coloca
o nome de alguém.