Diz Krishna:
Aquele que sem se ligar ao fruto do acto, realiza a acção
que lhe incumbe, é aquele que renuncia, é ele o asceta unificado, não aquele
que negligencia o fogo sacrificial e abandona a acção.
Aquilo a que se chama “renúncia” é o nosso método de
concentração e de prática porque ninguém é yogue sem ter renunciado aos
projectos em que põe o seu interesse.
Para o asceta que procura ascender nos degraus do yoga a
acção é o factor por excelência mas para aquele que concluiu a escalada a
quietude é o factor dominante.
Quando já não se adere aos objectos dos sentidos nem dos
actos, é então que, tendo renunciado a todo o “projecto interessado”, se diz
que terminou a escalada dos degraus do yoga.
Que cada um se erga a si mesmo e por si mesmo; que nãos e
mergulhe a si mesmo no abismo porque cada um é para si mesmo o seu aliado e o
seu inimigo.
Aquele que é para si mesmo o seu próprio aliado, triunfou de
si próprio por si mesmo. Mas comportamo-nos para connosco próprios como um inimigo
quando nos alienamos de nós mesmos.
O Eu daquele que se venceu a si mesmo (venceu o ego) e
obteve o apaziguamento permanece concentrado em perfeito equilíbrio entre os
contrários: frio e calor, prazer e dor, e também honra e desonra.
Porque o Eu que encontra a sua satisfação no conhecimento da
doutrina e na experiência libertadora, que se mantém inabalavelmente no alto,
que triunfou dos seus sentidos, adepto da disciplina unitiva, dizemo-lo
“unificado”, a esse para quem se apresentam iguais a terra, a pedra e o ouro.
Aquele cujo julgamento é o mesmo relativamente a seres
cordiais, a amigos, inimigos, indiferentes, neutros, odiosos, aliados, bons e
maus, esse distingue-se eminentemente.
O asceta deve recolher-se sem cessar, retirado à parte,
solitário, controlando o seu espírito, não aspirando a nada, despojado de tudo,
depois de ter arranjado para si, sobre um lugar purificado, um assento estável,
nem demasiado elevado nem demasiado baixo, coberto com tecido confortável ou
erva sagrada. Aí, com o pensamento concentrado numa única ponta, dominando as
suas operações mentais e sensoriais deve unificar-se na disciplina unitiva
tendo em vista a purificação; e depois robustecido, com o corpo, a cabeça e o
pescoço num mesmo aprumo e na imobilidade, com o olhar concentrado na ponta do
seu nariz, sem o deixar vaguear, de alma pacificada, isenta de angústia, fiel à
observância da castidade, disciplina unitiva, que ele se mantenha nessa postura
orientado para mim.
Trazendo-se a si mesmo incessantemente à unidade, o adepto
da disciplina unitiva cujas faculdades mentais se encontram dominadas acede à
paz na qual – fim supremo – se extingue toda a miséria, e que reside em mim.
O yoga não é para quem come demais nem para quem tem o
hábito de dormir demasiado ou que pelo contrário permanece sempre acordado.
Quem regula cuidadosamente as suas refeições e os seus
períodos de repouso, os seus esforços na acção e a parte que atribui ao sono e à
vigília, a esse pertence o yoga destruidor do sofrimento.
Quando o espírito disciplinado permanece unicamente fixado
em si mesmo, no Eu, e está despojado de todos os desejos, é então que se merece
que de si seja dito que é “disciplinado e unificado”.
“Como um lar luminoso colocado ao abrigo do vento…”, tal é a
comparação tradicional aplicada ao yogue cujo espírito é disciplinado e que
pratica a disciplina unitiva do Eu.
Lá onde o pensamento, suspenso pela prática assídua do yoga,
cessa de funcionar, e lá onde, apercebendo o Eu no Eu e pelo Eu, se encontra a
sua satisfação, lá onde se experimenta essa beatitude infinita que o intelecto
percepciona, mas não os sentidos, se nela nos estabelecemos [firmemente], não
nos afastamos do real.
E quando se obteve essa vantagem, nãos e considera que
qualquer outra possua um preço mais alto que ela. Robustecido em tal estado,
não se é abalado por nenhuma dor, mesmo grave.
Essa dissolução da união ao sofrimento, é preciso sabendo-se
que é a ela que designamos paradoxalmente como “união yóguica”. É ela que é
preciso praticar com decisão e com um espírito isento de desencorajamento.
Abandonando sem excepção todos os desejos que dão origem aos
projectos, dominando graças ao espírito o rebanho dos sentidos. Que deles se
suspenda pouco a pouco o funcionamento através do jogo da inteligência, apoiada
na determinação. Fixando o espírito sobre o Eu, que nãos e pense em nada.
Donde quer que surja a função mental agitadora, instável, há
que dominá-la e depois conduzi-la daí à submissão no Eu.
Com efeito, a felicidade suprema invade o asceta no mental
apaziguado que, tenha acalmado em si os factores de turbulência, passou a ser
Brâmane[i]
e sem mácula.
O asceta no interior do qual todo o mal desapareceu, que se
disciplina e se unifica a si mesmo sem cessar, atinge facilmente a felicidade
infinita: confundir-se com o Brâmane.
Residindo o Eu Superior em todos os seres, todos os seres
residindo nele: eis o que contempla aquele de quem todo o ser se encontra unificado
pelo yoga e que faz incidir sobre todas as coisas um olhar igual.
Aquele que me vê em toda aparte e que vê o Tudo em mim, eu
nunca estou perdido para ele, não é, nunca, perdido para mim.
Aquele devotado à unidade, que me adora enquanto residente
em todos os seres, seja qual for a maneira como ele se comporta, esse yogue está
sempre presente em mim.
Aquele que considera igualmente todas as coisas, felicidade
ou infelicidade, a exemplo do seu próprio Eu, tal Homem é tido como um asceta
proeminente.
Ardjuna disse:
Esse yoga de equanimidade que tu proclamas, tendo em
consideração a instabilidade da faculdade mental, não vejo que ele possa
estabelecer-se de maneira duradoura.
Porque esse mental é inconstante, torturador, poderoso,
obstinado, em minha opinião, ele é como o vento, muito difícil de subjugar.
Diz Krishna:
Sem qualquer dúvida, o órgão mental é difícil de dominar,
flutuante; mas tornamo-nos dele senhores, pela prática assídua e pelo
despojamento.
Sou de opinião que o yoga é dificilmente levado a bom termo
por aquele que não se domina a si próprio. Ele pode, todavia ser obtido com os
meios espirituais adequados, por aquele que se submete a uma disciplina e faz o
esforço conveniente.
Ardjuna disse:
Aquele que, incapaz de tensão ascética, tendo embora a fé,
deixa errar a sua faculdade mental para longe do yoga, por incapacidade de
chegar à realização desse yoga, qual é o seu destino?
Perdidas as suas duas vias, não irá ele, tal como uma nuvem
esfarrapada, a caminho da sua condenação, inseguro e desorientado sobre o
caminho do Brâmane?
Esta minha dúvida, Krishna, fica-te bem que ma esclareças,
porque ninguém, além de ti, é susceptível de o fazer.
Diz Krishna:
Nem neste mundo nem no outro esse Homem encontrará a sua
perda. Porque não existe ninguém que, autor de belas e boas acções, incorra num
mau destino.
Acedendo ao lugar dos merecedores, e aí permanecendo durante
uma ininterrupta sequência de anos, aquele que falhou no yoga renasce na morada
de homens puros e de qualidade.
Ou então ele vem à existência exactamente na família de yogues
plenos de sabedoria; porque semelhante nascimento é ainda mais difícil de obter
neste mundo.
Aí ele retoma contacto com essas mesmas qualidades
intelectuais que eram as do seu corpo anterior, e depois, partindo novamente
daí, ele desenvolve esforços mais intensos com vista a ser bem-sucedido no
yoga.
Sob o efeito justamente dessa prática anterior, ele é arrastado,
ainda que não o queira. Ainda que se contente com o simples desejo de conhecer
o yoga, ele passa para além do brâmane- palavra.
Ora o yogue que se esforça com toda a sua energia,
purificado de toda a mácula, tendo atingido a perfeição, no termo de uma pluralidade
de nascimentos, acede finalmente ao destino supremo.
O yogue leva a melhor sobre aqueles que se entregam às
austeridades, ele é até considerado superior aos que se limitam à sabedoria
especulativa; ultrapassa os heróis da ação. Por isso Ardjuna torna-te yogue!
Melhor ainda, aquele que, entre todos os yogues, permanece
em mim e, do mais profundo da sua alma, me adora cheio de fé, esse, eu
considero-o como tendo atingido o cume da união yóguica.
[i] O termo
brâmane, adaptação do termo sânscrito védico brahmana, que significa
"aquele que é versado no conhecimento de Brâman - a alma cósmica".
Segundo o Purusha Sukta, o canto X.90 do Rigveda,
dedicado ao Purusha - o homem cósmico primordial transcendente - os brâmanes
surgiram da boca do Purusha.
“A sua boca
tornou-se o brahmana, os seus braços se transformaram no ksatrya, as suas coxas
em vaisya e dos pés nasceu o sudra. “
—Rigveda,
X,90-11,12
Paz e Amor,
Curadora64
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