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Sarva Yoga - Yoga Holístico

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domingo, 27 de agosto de 2017

Canto VI - Bhagavad Guita - Disciplina do recolhimento


Diz Krishna:

Aquele que sem se ligar ao fruto do acto, realiza a acção que lhe incumbe, é aquele que renuncia, é ele o asceta unificado, não aquele que negligencia o fogo sacrificial e abandona a acção.

Aquilo a que se chama “renúncia” é o nosso método de concentração e de prática porque ninguém é yogue sem ter renunciado aos projectos em que põe o seu interesse.

Para o asceta que procura ascender nos degraus do yoga a acção é o factor por excelência mas para aquele que concluiu a escalada a quietude é o factor dominante.

Quando já não se adere aos objectos dos sentidos nem dos actos, é então que, tendo renunciado a todo o “projecto interessado”, se diz que terminou a escalada dos degraus do yoga.

Que cada um se erga a si mesmo e por si mesmo; que nãos e mergulhe a si mesmo no abismo porque cada um é para si mesmo o seu aliado e o seu inimigo.

Aquele que é para si mesmo o seu próprio aliado, triunfou de si próprio por si mesmo. Mas comportamo-nos para connosco próprios como um inimigo quando nos alienamos de nós mesmos.

O Eu daquele que se venceu a si mesmo (venceu o ego) e obteve o apaziguamento permanece concentrado em perfeito equilíbrio entre os contrários: frio e calor, prazer e dor, e também honra e desonra.

Porque o Eu que encontra a sua satisfação no conhecimento da doutrina e na experiência libertadora, que se mantém inabalavelmente no alto, que triunfou dos seus sentidos, adepto da disciplina unitiva, dizemo-lo “unificado”, a esse para quem se apresentam iguais a terra, a pedra e o ouro.

Aquele cujo julgamento é o mesmo relativamente a seres cordiais, a amigos, inimigos, indiferentes, neutros, odiosos, aliados, bons e maus, esse distingue-se eminentemente.

O asceta deve recolher-se sem cessar, retirado à parte, solitário, controlando o seu espírito, não aspirando a nada, despojado de tudo, depois de ter arranjado para si, sobre um lugar purificado, um assento estável, nem demasiado elevado nem demasiado baixo, coberto com tecido confortável ou erva sagrada. Aí, com o pensamento concentrado numa única ponta, dominando as suas operações mentais e sensoriais deve unificar-se na disciplina unitiva tendo em vista a purificação; e depois robustecido, com o corpo, a cabeça e o pescoço num mesmo aprumo e na imobilidade, com o olhar concentrado na ponta do seu nariz, sem o deixar vaguear, de alma pacificada, isenta de angústia, fiel à observância da castidade, disciplina unitiva, que ele se mantenha nessa postura orientado para mim.

Trazendo-se a si mesmo incessantemente à unidade, o adepto da disciplina unitiva cujas faculdades mentais se encontram dominadas acede à paz na qual – fim supremo – se extingue toda a miséria, e que reside em mim.

O yoga não é para quem come demais nem para quem tem o hábito de dormir demasiado ou que pelo contrário permanece sempre acordado.

Quem regula cuidadosamente as suas refeições e os seus períodos de repouso, os seus esforços na acção e a parte que atribui ao sono e à vigília, a esse pertence o yoga destruidor do sofrimento.

Quando o espírito disciplinado permanece unicamente fixado em si mesmo, no Eu, e está despojado de todos os desejos, é então que se merece que de si seja dito que é “disciplinado e unificado”.

“Como um lar luminoso colocado ao abrigo do vento…”, tal é a comparação tradicional aplicada ao yogue cujo espírito é disciplinado e que pratica a disciplina unitiva do Eu.

Lá onde o pensamento, suspenso pela prática assídua do yoga, cessa de funcionar, e lá onde, apercebendo o Eu no Eu e pelo Eu, se encontra a sua satisfação, lá onde se experimenta essa beatitude infinita que o intelecto percepciona, mas não os sentidos, se nela nos estabelecemos [firmemente], não nos afastamos do real.

E quando se obteve essa vantagem, nãos e considera que qualquer outra possua um preço mais alto que ela. Robustecido em tal estado, não se é abalado por nenhuma dor, mesmo grave.

Essa dissolução da união ao sofrimento, é preciso sabendo-se que é a ela que designamos paradoxalmente como “união yóguica”. É ela que é preciso praticar com decisão e com um espírito isento de desencorajamento.

Abandonando sem excepção todos os desejos que dão origem aos projectos, dominando graças ao espírito o rebanho dos sentidos. Que deles se suspenda pouco a pouco o funcionamento através do jogo da inteligência, apoiada na determinação. Fixando o espírito sobre o Eu, que nãos e pense em nada.

Donde quer que surja a função mental agitadora, instável, há que dominá-la e depois conduzi-la daí à submissão no Eu.

Com efeito, a felicidade suprema invade o asceta no mental apaziguado que, tenha acalmado em si os factores de turbulência, passou a ser Brâmane[i] e sem mácula.

O asceta no interior do qual todo o mal desapareceu, que se disciplina e se unifica a si mesmo sem cessar, atinge facilmente a felicidade infinita: confundir-se com o Brâmane.

Residindo o Eu Superior em todos os seres, todos os seres residindo nele: eis o que contempla aquele de quem todo o ser se encontra unificado pelo yoga e que faz incidir sobre todas as coisas um olhar igual.

Aquele que me vê em toda aparte e que vê o Tudo em mim, eu nunca estou perdido para ele, não é, nunca, perdido para mim.

Aquele devotado à unidade, que me adora enquanto residente em todos os seres, seja qual for a maneira como ele se comporta, esse yogue está sempre presente em mim.

Aquele que considera igualmente todas as coisas, felicidade ou infelicidade, a exemplo do seu próprio Eu, tal Homem é tido como um asceta proeminente.

Ardjuna disse:

Esse yoga de equanimidade que tu proclamas, tendo em consideração a instabilidade da faculdade mental, não vejo que ele possa estabelecer-se de maneira duradoura.
Porque esse mental é inconstante, torturador, poderoso, obstinado, em minha opinião, ele é como o vento, muito difícil de subjugar.

Diz Krishna:

Sem qualquer dúvida, o órgão mental é difícil de dominar, flutuante; mas tornamo-nos dele senhores, pela prática assídua e pelo despojamento.

Sou de opinião que o yoga é dificilmente levado a bom termo por aquele que não se domina a si próprio. Ele pode, todavia ser obtido com os meios espirituais adequados, por aquele que se submete a uma disciplina e faz o esforço conveniente.

Ardjuna disse:

Aquele que, incapaz de tensão ascética, tendo embora a fé, deixa errar a sua faculdade mental para longe do yoga, por incapacidade de chegar à realização desse yoga, qual é o seu destino?

Perdidas as suas duas vias, não irá ele, tal como uma nuvem esfarrapada, a caminho da sua condenação, inseguro e desorientado sobre o caminho do Brâmane?

Esta minha dúvida, Krishna, fica-te bem que ma esclareças, porque ninguém, além de ti, é susceptível de o fazer.

Diz Krishna:

Nem neste mundo nem no outro esse Homem encontrará a sua perda. Porque não existe ninguém que, autor de belas e boas acções, incorra num mau destino.

Acedendo ao lugar dos merecedores, e aí permanecendo durante uma ininterrupta sequência de anos, aquele que falhou no yoga renasce na morada de homens puros e de qualidade.

Ou então ele vem à existência exactamente na família de yogues plenos de sabedoria; porque semelhante nascimento é ainda mais difícil de obter neste mundo.

Aí ele retoma contacto com essas mesmas qualidades intelectuais que eram as do seu corpo anterior, e depois, partindo novamente daí, ele desenvolve esforços mais intensos com vista a ser bem-sucedido no yoga.

Sob o efeito justamente dessa prática anterior, ele é arrastado, ainda que não o queira. Ainda que se contente com o simples desejo de conhecer o yoga, ele passa para além do brâmane- palavra.

Ora o yogue que se esforça com toda a sua energia, purificado de toda a mácula, tendo atingido a perfeição, no termo de uma pluralidade de nascimentos, acede finalmente ao destino supremo.

O yogue leva a melhor sobre aqueles que se entregam às austeridades, ele é até considerado superior aos que se limitam à sabedoria especulativa; ultrapassa os heróis da ação. Por isso Ardjuna torna-te yogue!

Melhor ainda, aquele que, entre todos os yogues, permanece em mim e, do mais profundo da sua alma, me adora cheio de fé, esse, eu considero-o como tendo atingido o cume da união yóguica.




[i] O termo brâmane, adaptação do termo sânscrito védico brahmana, que significa "aquele que é versado no conhecimento de Brâman - a alma cósmica".
Segundo o Purusha Sukta, o canto X.90 do Rigveda, dedicado ao Purusha - o homem cósmico primordial transcendente - os brâmanes surgiram da boca do Purusha.
“A sua boca tornou-se o brahmana, os seus braços se transformaram no ksatrya, as suas coxas em vaisya e dos pés nasceu o sudra. “
—Rigveda, X,90-11,12


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Posted by Auras, Cores e Números on Sábado, 29 de agosto de 2015

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