Colecções Auras G+

Colecções Auras G+
Curadora Sessenta e Quatro

Publicação em destaque

Algumas considerações sobre a visualização espontânea de auras

terça-feira, 19 de julho de 2016

Flor

                     

Nasci.

As últimas horas foram difíceis e desconfortáveis mas, a minha mãe com a sua velha língua áspera deu-me o meu primeiro banho e já me sinto melhor.

Depois de lutar com os meus irmãos por uma teta, fui a última de cinco a nascer, deitei-me perto do pescoço da minha mãe. É um lugar muito confortável e além de ter direito a umas lambidelas extra, ouço uma música suave e ritmada que me faz lembrar outras coisas.

Adormeço e sonho com um grande espaço verdejante, quentinho e com muita luz, lá está a tal música outra vez…

Acordei com um grande alarido, alguma coisa está a pegar em mim e a levantar-me. A minha mãe está calma por isso não deve ser nada de mal. A coisa tem um cheiro diferente da minha mãe e irmãos mas agora que estou encostado nela sinto a mesma música que no pescoço da minha mãe. Aproximou-se outra coisa e também pegou em mim, o cheiro é outro, talvez mais suave, mas é a mesma música.

***

São meninos, agora sei-o, saio a correr atrás deles pela relva molhada com o orvalho da manhã e tropeço nas minhas pernas grandes e desajeitadas. O menino cheira a terra e a sementes e a menina a flores.

Os meus irmãos estão sempre a saltar e a rebolar pela relva, eu prefiro cheirar as flores e investigar o que está a volta da casa.

Descobri que tem um lago com patos e rãs em frente à casa. Os meninos chamam-lhe uma Ria e como temos interesses comuns andamos sempre juntos. A menina deu-me o nome de Flor e eu para lhe fazer sentir que aprovava cheirei logo uma, espero que ela tenha compreendido.

Mas o que eu gosto mais é de sair de barco com o menino para o outro lado do lago, ele vai apanhar mexilhões e eu ladro aos caranguejos para os assustar e ele apanhar alguns. Deve resultar porque ele leva-me sempre…é o meu melhor amigo.

***

Agora sou grande, quase do tamanho da minha mãe, o meu dono grande anda a treinar-me para a caça aos patos que acontece no Outono. Não sei se consigo, os meus irmãos dizem-me para ver isso como uma grande brincadeira em que eu só os encontro e espanto correndo atrás deles.

-E depois? - perguntei ao meu irmão mais velho.

-Depois do quê? – disse ele.

-Depois de os espantar o que faço? Eu ainda não percebi…-estava cheia de maus pressentimentos.

-Bom, - disse ele rolando os olhos - quando os patos caírem vais apanhá-los.

- Caírem? Mas porque é que eles hão-de cair?

Mas o meu irmão mais velho não me respondeu e eu ia perceber tudo brevemente…

***

- Flor! Busca!- gritou o meu dono mais velho depois de disparar a sua velha caçadeira.

Eu fui ligeira como o vento, correndo por cima dos tufos de vegetação da Pateira. Foi então que o vi…e senti pela primeira vez o cheiro da morte.

Fiz o que me tinham ensinado, ladrei e sentei-me à espera. O meu dono chegou e recolheu com muito cuidado o pato caído. Tinha umas belas penas verdes e azuis e o pescoço longo oscilou quando foi erguido.

Nessa noite não consegui dormir. Aquele pato era igual aos que brincavam comigo no lago. Aquilo não era para mim, tinha de arranjar maneira de deixar de o fazer…

***

Passou outro ano.

Sou muito feliz aqui. Quando o meu menino chega da escola brincamos os dois e saímos de barco para fazer explorações.

Já quase me esqueci da caça aos patos, estamos no verão e os dias são longos e quentes, eu e os meninos temos muito que aproveitar.

Saímos no barco todos os dias, por vezes o menino deita-se na outra margem a ver as nuvens passar e eu penso como é bom estar assim sem fazer nada os dois juntos.

Outras vezes andamos os três a correr atrás das gaivotas e das alvéolas, a encontrar os ninhos da íbis branca, a escavar os minúsculos buracos dos caranguejos nas rochas.

Quando chegamos a casa é quase noite e depois de jantar adormecemos imediatamente.

Quem me dera que fosse sempre verão!

***

Chegou o Outono.

Senti um aperto no coração quando vi o meu dono mais velho atrelar a caixa dos cães ao jipe.

No dia seguinte, de madrugada ele chamou-me e enfiou-me no atrelado partindo em direcção à Pateira.

-Pum! Flor! Busca!

Obedeci mas quando cheguei ao pé do pato morto, em vez de fazer o habitual abocanhei-o e sacudi-o. Sacudi e sacudi até o meu dono chegar e bater-me até eu o largar.

Quando chegamos a casa o meu dono estava a contar o sucedido à mulher, eu aproximei-me para ouvir e levei mais uns pontapés. Mas, não me importei porque ele disse que nunca mais me levava à caça.

Fui para a minha casota dormir e, pela primeira vez em muito tempo, voltei a sonhar com o tal jardim luminoso e escutei a música maravilhosa.

No dia seguinte o menino veio da escola e fomos passear, pensei que era feliz de novo.

***

Este ano tem sido confuso… O menino está doente, eu suspeito que está muito doente porque noto à volta dele menos luz.

Agora já não vai à escola e ainda não estamos no verão. Fico sempre ao pé dele e saio pouco de casa mas não importa porque estamos juntos.

Tenho visto a mãe dele e a irmã a chorarem muito, tento consolá-las mas não sei como.

Eu também estou triste mas não o posso mostrar.

Fui ao lago buscar uma salamandra e um mexilhão, levei uma tareia da dona mais velha. O menino ficou contente quando os viu, até se riu. Não importa que me batam, vou voltar a trazer caranguejos e outros bichos pequenos. Vou é ser mais discreta.

O meu menino morreu, não sei explicar esta dor no coração que sinto. Arrancaram-me à força do seu quarto, eu queria ficar com ele.

Ouvi o meu dono mais velho dizer que me vai dar porque já não pode olhar para mim.

***

A menina levou-me para a casa de uma senhora muito velhinha, que ela chama de avó. Disse-me que agora ela é a minha dona. É muito boa para mim mas sinto tanta falta do menino!

A senhora velha tem um quintal grande com outros cães mas não é o mesmo que a Ria, embora alguns dos cães sejam simpáticos.

***

Estamos na primavera.

Ultimamente tenho-me sentido menos só, sinto uma espécie de companhia, não sei explicar.

Não tenho andado muito bem do estômago. Nos últimos dias nem tenho conseguido comer. A senhora velha tem-me feito muitos carinhos, será que estou doente?

Eram os meus cachorrinhos, nasceram ontem à noite. Ainda bem que tive uma boa mãe, fiz tudo igual a ela. São só três mas estou muito ocupada. Tão ocupada que pela primeira vez não penso no meu menino.

***

Estamos no fim do verão.

O meu dono antigo apareceu e levou-me dois dos meus filhos. Os outros cães disseram-me que era assim mesmo, ainda tinha muita sorte de me deixarem um.

Agora estou em paz mas sinto muita falta dos passeios no lago com o meu menino.

***

A senhora velha não está bem, no outro dia caiu e agora está de cama.

Está tanto frio…Temos todos fome. A senhora velha não tem aparecido para nos dar de comida. Estamos a ficar desesperados os que podemos fazer, estamos fechados neste quintal.

Alguns dos cães ladraram muito e alguns dos vizinhos da velha senhora apareceram.

Ouvi-os a arrombarem a porta, pouco tempo depois chegou uma ambulância e levou a velha senhora.

Os outros cães perguntavam-se entre si o que seria, infelizmente não tive dúvidas e expliquei-lhes que a nossa dona devia estar muito mal.

Uma das vizinhas, foi buscar comida para nós. É uma jovem muito simpática e esteve a observar-nos com muita atenção para ver o que precisávamos mais.

Agora tem aparecido todos os dias e lava as nossas casotas e os pátios além de nos trazer de comer. Agradeço-lhe sempre com uma lambidela.

***

Hoje quando fui acompanhar a nossa jovem amiga ao portão, via-a olhar preocupada para o fecho.

-Parece-me que tenho de mandar arranjar este fecho. Pois é Flor, à bocadinho quando cheguei, a porta estava apenas encostada.

Assenti ladrando e pensei em dizer aos outros para termos cuidado durante a noite.

Mas eu não estava habituada a ter nada fechado, na outra casa nem sequer tínhamos muros e depressa me esqueci.

Estava a dormir enroscadinha no meu pequenino quando ouvi uma grande algazarra. Costumávamos dormir, no tempo frio, debaixo da casa e foi daí que espreitámos a medo o motivo de tanto barulho.

Vimos muitos meninos a gritar em roda, à volta de uma fogueira, depois reparei que tinham um cão que gania porque eles estavam a queimá-lo. Sufoquei um grito e ficamos abraçadinhos a tremer.

Passado algum tempo ouvimos outras vozes, algumas pessoas que ouviram apareceram e foram salvar os cães.

Nessa altura vi que tinham queimado quase todos os cães e ouvi a nossa amiga chamar por mim muito aflita. Saímos do nosso esconderijo e ela abraçou-me a chorar.

Só nos tínhamos salvado os dois e ela levou-nos para casa dela.

***

Fiquei sem o meu pequenino.

A jovem senhora explicou-me que não podia ter tantos animais e que ele ia ficar bem, que os donos eram bons e gostavam dele.

Um dia a minha menina veio buscar-me e levou-me para casa dela. Vivo outra vez perto do lago outra vez, só me falta o meu menino.

***

Estou muito velha e já não posso correr como antes.

Quando a minha menina me veio buscar levou-me para casa dela e eu vi os filhos dela crescer. Ensinei-lhes tudo o que pude, principalmente a gostarem de animais.

Felizmente o marido dela não era caçador e assim eu pude ajudar a criar os filhos dela em paz.

Foi para isso que eu nasci. Ia à pesca com os meninos, brincava com as meninas, a colher flores e corríamos atrás das borboletas. Por vezes parecia que os velhos tempos tinham voltado.

Fui muito feliz nesta casa.

Sei que já não me resta muito tempo, tenho sonhado com o menino, ele diz que me vem buscar para irmos os dois para o tal jardim em que toda a gente é jovem saudável e feliz.
Estou ansiosa para ouvir a música outra vez e brincar com as borboletas.


Parece que nesse jardim há muitas flores.


Este conto é dedicado à tímida Flor, dos olhos tristes, que nunca esquecerei. Escrito em 2008 quando a conheci num abrigo.

Paz e Amor
Curadora64

Copyright © Curadora64  All Rights Reserved. You may copy and redistribute this material so long as you do not alter it in any way, the content remains complete, and you include this copyright notice link:

http://auras-colours-numbers.blogspot.com/


Sem comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

copyscape

Protected by Copyscape

Adam Kadmon

Meridianos MTC

Kundalini

Toroide - Energia Livre

Formas de Pensamento

A Grande Invocação

Meditação pela Paz

Meditação fora do espaço e tempo (a qualquer hora e em qualquer lugar, sem inscrições nem regras)Apelo ao envio de Luz...

Posted by Auras, Cores e Números on Sábado, 11 de Julho de 2015

Aura - o que é?

Controlo da Mente

Vida ET


"Se não existe vida fora da Terra, então o universo é um grande desperdício de espaço."- Carl Sagan
Posted by Auras, Cores e Números on Sábado, 29 de agosto de 2015

Chakras

Deva Premal - playlist