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terça-feira, 19 de julho de 2016

A Greve dos Animais


Era uma vez…um crocodilo chamado Têtê que vive numa floresta com muitos animais diferentes.

Vocês podem pensar:

-Que disparate! Toda a gente sabe que os crocodilos vivem nos rios, não nas florestas!

Mas, esta floresta fica entre o rio e o mar e este crocodilo até tem uma amiga que é um golfinho fêmea, chamada Zizi. Eles gostam de conversar e, todos os dias se encontram na margem do rio ao fim da tarde, para contar os últimos mexericos um ao outro.

Um dia Zizi, que esperava o seu amigo ia observando o pôr-do-sol. Estava tão distraída que se assustou, dando um saltinho quando alguma coisa a picou.

-Será um peixe? – pensou Zizi voltando-se graciosamente.

Esta volta foi fatal para ela porque se enredou numa rede. Zizi tentou libertar-se mas quanto mais se debatia mais presa ficava.

Felizmente o seu amigo crocodilo, chegou nessa altura e cortou a rede com os seus dentes afiados.

Passado algum tempo e deixando a sua amiga recompor-se do susto, o crocodilo disse:

-Sabes de quem é a culpa disto tudo? É do Homem. Hoje, cheguei atrasado porque me chamaram para ir soltar o nosso amigo Ouriço na floresta. Ele estava preso numa armadilha e, tu sabes bem quem usa coisas dessas.

                 

Os animais da floresta eram todos amigos do nosso crocodilo porque ele ajudava a todos.

- Ah, disse Zizi, isto agora acontece todos os dias, ontem foi a vez da raposa!

- E ontem apareceram aqueles animais que falam muito alto…como se chamam? - perguntou Têtê.

- Eles não falam… ladram e uivam à noite, são os cães…, explicou Zizi.

- Pois é, mas, eles assustam as crias dos patos no lago, os coelhinhos da dona Coelha…é uma confusão! - queixou-se Têtê.

- Mas eu não compreendo…de onde vieram todos eles? – perguntou Zizi.

Têtê inchou o peito de ar, ele sabia sempre “tudo” e explicou:

- São os homens que os trazem até aqui de carro, a dona Passarinho contou-me, ela viu.

-Mas, eu não percebo …, replicou Zizi abanando a cabeça, porque os deixam ficar e se vão embora?

Têtê baixou a cabeça e disse que isso não sabia. Só sabia que o rei da floresta tinha convocado todos os animais para uma reunião de urgência hoje à noite.

                 

Nessa mesma noite, debaixo de um céu estrelado e de uma lua muito brilhante em forma de foice…

 O rei da floresta, que mais não era senão o Ouriço-cacheiro que por ser muito pequeno e para todos os animais o verem, estava em cima duma rocha, à beira do lago.

À medida que os animais iam chegando, reuniam-se à volta da rocha e esperavam. Os últimos a chegar foram os peixes e os golfinhos.

Enquanto o chefe dos golfinhos explicava que tinham tido outra reunião, para tomar medidas preventivas sobre as redes que apareciam no mar, estavam todos muito atentos e não repararam nos vultos silenciosos e cabisbaixos que se acercaram para escutar.

O Ouriço tomou a palavra e disse:

- Queridos amigos, chamei-vos aqui para decidirmos o que fazer. A nossa floresta está cheia de lixo, o nosso rio também e para cúmulo agora temos estes seres estranhos que assustam as nossas crias e fazem tanto barulho de noite. Já reparámos que eles são parecidos com o Lobo - o rei da floresta dirigiu-se ao Lobo interrogativamente – algum parente distante talvez…

                   

-Não que eu saiba… - respondeu orgulhosamente o Lobo.

Os outros animais insistiram numa grande algazarra que o Lobo fosse falar com os cães. Por fim, este acedeu e ficou combinado que no dia seguinte, o Lobo iria para perto da estrada, no fim da floresta e se visse os cães falaria com eles.

Antes que o rei Ouriço pensasse em mandar os seus amigos para casa, dando por finda a reunião ouviram-se uns ganidos tímidos. Todos os animais se viraram e viram pela primeira vez os vultos dos cães recortando-se no céu estrelado. Um murmúrio de susto percorreu a floresta.

- Não tenham medo de nós…estávamos a ouvir…não sabíamos que tínhamos causado tantos problemas. – disse um dos cães que era mais velho e sábio.

Os animais da floresta olharam todos para o Ouriço, este recompondo-se rapidamente falou:

- Ainda bem que estão aí…não nos querem explicar o que se passa? Vocês não são animais da floresta…o que fazem aqui?

- Eu…eu…fui deixado aqui pelo meu dono…mas deve ter sido engano…estou só à espera que ele me venha buscar. – disse um cãozinho muito novo, nervosamente.

- Coitadinho…és tão inocente…quantas vezes te preciso de dizer que isso nunca vai acontecer. Eu fui abandonado no meio da minha cidade e desde então tenho falado com os outros cães que também foram abandonados…Vim aqui parar, fugindo dos maus-tratos dos humanos. 

Os animais da floresta olharam uns para os outros e abanaram a cabeça…eles, às vezes, já tinham visto humanos ao longe, acompanhados de cães. Nessas alturas todos se escondiam nas tocas ou nos ramos altos das árvores, conforme as possibilidades, e ficavam muito quietos. Agora isto de os humanos serem donos dos cães e tratarem-nos mal, estava além da sua compreensão.

O rei ouriço tossiu aclarando a voz e disse:

- Vocês podiam esclarecer porque os humanos sujam a floresta o rio e o mar?

                           Resultado de imagem para cão na floresta

O cão mais velho abanou a cabeça e respondeu:

- Não sei mas, posso dizer-te que as cidades deles também são sujas. Algumas vezes vim aqui com o meu dono e ele deixava sempre ficar coisas…latas, sacos e cadeiras velhas. Eu nessa altura não pensava nisso mas agora que falas…

Entretanto, Zizi e Têtê ouviam toda esta conversa muito espantados. Têtê ficou muito nervoso e pediu permissão ao rei para falar:

- Devíamos dar uma lição a esses humanos, não está certo…eles destroem tudo!

Todos os animais aprovaram em grande algazarra. Então o Lobo falou calmamente:

- Está tudo muito bem …mas o que podemos fazer? Pois é, – insistiu o Lobo – nós não somos como os cães, os gatos e até as ovelhas que vivem com o Homem.

Então o cão velho disse:

- Mas eu posso ir até à cidade e falar com os outros animais e …fazemos greve…pronto!

- Greve? – perguntou Zizi timidamente.

- Sim, boa ideia! – disse o crocodilo Têtê, que não sabia o que era greve mas, era todo por novas ideias.

E foi assim que todos os animais da floresta e os cães abandonados resolveram fazer greve mesmo sem saberem o que era.

              

A dona Passarinho e o senhor Passarinho também se ofereceram para ir à cidade, a Dona Formiga e até o Caracol, o Sapo foi saltitando e a dona Pata mancando com a filharada toda a trás.

Era um estranho cortejo mas os humanos estavam tão atarefados, como sempre aliás, que nem repararam nos ajuntamentos de animais e nas reuniões secretas durante a noite. Na verdade foi uma coisa nunca vista, a família Passarinho falava com a família da dona Gata, decidiram qualquer coisa e depois separaram-se muito felizes.

                  

Passado uns dias o agricultor reparou que os seus bois não puxavam a carroça, as suas vacas não davam leite, as galinhas não punham ovos e pior que isso havia imensos ratos a passear pelo campo e pela cidade pois os gatos não os caçavam. A cidade ficou um caos, os ladrões andavam à vontade porque os cães não ligavam nenhuma. Os passarinhos não cantavam de manhã e as pessoas andavam deprimidas. Mas, continuavam a fazer as mesmas coisas, vivendo atarefadas e correndo sempre de casa para o trabalho.

Foi no meio desta confusão que, a Zizi salvou um menino, que andava a praticar surf, de se afogar. Este menino tinha uma alma pura e sabia falar com os animais, agradeceu-lhe em língua de golfinho no mais puro estilo.

Zizi admirou-se com isto e estava a contar ao seu amigo Crocodilo, quando Têtê gritou, pois acabara de ter uma ideia crocodiliana:

- E se o teu amigo, o menino surfista, fosse o intermediário entre os humanos e os animais? hã ?hã?

Zizi ainda estava a pensar o que seria “intermediário” quando apareceu o Ouriço que vinha pedir um favor ao Crocodilo. O Ouriço tinha escutado tudo e pediu à Zizi para ela trazer o menino no dia seguinte à mesma hora.

                         

No dia seguinte ao pôr-do-sol, Zizi chegou pontualmente com o menino surfista pendurado no seu dorso. O rei Ouriço e o crocodilo Têtê já estavam à espera. Explicaram ao menino a situação e perguntaram-lhe se ele podia ajudar.

- Não adianta falar com os adultos, disse o menino, são poucos os que podem compreender e mudar. Mas, com as crianças é diferente. Prometo trazer todos os meus amigos e se eles concordarem, faremos tudo mudar.

E é assim que os animais e os homens passaram a viver lado a lado em perfeita harmonia e companheirismo. 
E a Terra finalmente ficou limpa e em Paz.

                                 ***
Este conto foi escrito para os meus alunos do 8º ano, em 2007/2008. Com ele fizeram um teatro de marionetas, actividade inserida num projecto de solidariedade para com os animais abandonados. :)

Paz e Amor
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