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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Mecanismo de Anticítera

O mais antigo computador era usado para prever o futuro?


Desde sua descoberta, em 1901, o mecanismo de Anticítera tem fascinado e mistificado pesquisadores do mundo todo. Só recentemente o seu funcionamento foi desvendado, mas a sua finalidade ainda era um mistério.

Segundo um recente estudo, que levou mais de uma década, o mecanismo de Anticítera não era utilizado por astrónomos para prever eclipses, ou mesmo por astrólogos para fazer prognósticos, embora ele tenha uma referência à cor de um futuro eclipse e o seu significado.

No último dia 9, um grupo de pesquisadores anunciou o resultado da análise de pequenas inscrições encontradas em várias partes do mecanismo. Com algumas letras medindo meros 1,2 mm, foram necessários técnicas especiais para revelar o texto escrito nas 82 diferentes partes que sobreviveram do mecanismo.

O que os pesquisadores revelaram é fascinante. Os 3.500 caracteres decifrados mostram que o mecanismo era mais uma ferramenta para um filósofo, falando do nosso lugar no cosmos, do que apenas um computador para calcular eclipses e a posição dos astros.

Os pesquisadores suspeitam de que esta seja a finalidade do mecanismo – não só prever a posição dos astros, mas o próprio futuro, principalmente considerando o trecho sobre a cor de um futuro eclipse e o seu significado.

“Ainda não estamos bem certos de como interpretar isso, para ser justo, mas pode ser que ele remeta a sugestões de que a cor de um eclipse era algum tipo de presságio ou sinal”, conta Mike Edmunds, um professor de astrofísica na Universidade Cardiff.

“Certas cores podem indicar um futuro melhor do que outras. Se for assim, e estamos interpretando isso correctamente, então este é o primeiro caso de um mecanismo com uma referência real à astrologia em vez de astronomia”, conclui ele.



Mas os pesquisadores apontam que, mesmo assim, o objectivo principal do mecanismo era astronómico, em vez de astrológico. Era como um livro-texto.

“Ele não era uma ferramenta de pesquisa, algo que um astrónomo usaria para fazer cálculos, ou mesmo um astrólogo para fazer prognósticos, mas algo que você usaria para ensinar sobre o cosmos e nosso lugar no mesmo”, acrescenta Alexander Jones, um historiador da Universidade Nova Iorque. 

“É como um livro-texto de astronomia como ela era entendida na época, que conectava os movimentos do céu e dos planetas com as vidas dos antigos gregos e seu ambiente”.

Outras coisas que os pesquisadores descobriram era que aparentemente o mecanismo foi feito na ilha de Rodes, e não foi o único a ser feito. Pequenas variações nas inscrições sugerem que pelo menos duas pessoas estiveram envolvidas na feitura do instrumento, mas é provável que outros foram recrutados para fazer as engrenagens. Com tantas cabeças envolvidas, provavelmente era o resultado da produção de uma pequena oficina, e não de uma única pessoa. 


Calendário Olímpico num computador de 2000 anos



Um dos mais polémicos achados arqueológicos do mundo – o mecanismo de Anticítera ou máquina de Antikythera – tem mais uma de suas funções reveladas: a previsão dos ciclos de quatro anos dos jogos olímpicos e outros jogos pan-helénicos correntemente usados no helenismo clássico como base para a sua cronologia.

Tendo sido descoberto no início do século XX juntamente com várias outros objectos nos restos de um naufrágio de um antigo navio romano à profundidade de aproximadamente 43 metros na costa da ilha grega de Anticítera (entre a ilha de Cítera e a de Creta), sua importância e complexidade não foram compreendidos até recentemente.

A construção foi datada do século 1 a. C, sendo que artefactos desse nível de tecnologia e de complexidade só foram registados a partir do século XVI, quando relógios e mecanismos astronómicos começaram a ser construídos na Europa Ocidental.

O professor Michael Edmunds da Universidade de Cardiff, que liderou seu estudo mais recente afirmou: “Este dispositivo é simplesmente extraordinário, é o único de seu tipo. O design é de rara beleza e sua precisão nas previsões astronómicas é impressionante. Considerando o cuidado de sua construção e a unicidade de seu funcionamento, tenho que considerar este mecanismo, do ponto vista histórico, como sendo mais valioso que a pintura Mona Lisa”.

Compõe actualmente do acervo do Museu Arqueológico Nacional de Atenas, acompanhado de uma réplica elaborada por Derek de Solla Price, sendo que diversas outras réplicas estão em exposição em vários museus em todo o mundo, tais como Museu do Computador Americano em Bozeman, Montana, Museu das Crianças de Manhattan, em Nova York, em Kassel, Alemanha, e no Musée des Arts et Métiers, em Paris.



O mecanismo encontrado mede aproximadamente 340 × 180 × 90 mm (o tamanho aproximado de um laptop) e compreende 27 engrenagens de bronze, feitas a mão, organizadas primitivamente em uma caixa ou moldura de madeira, constituindo-se no mais antigo computador analógico conhecido, concebido para representar mecanicamente a órbita da Lua, de outros planetas do Sistema Solar e do próprio Sol além de indicar, como afirmado anteriormente, os ciclos de 4 anos dos jogos olímpicos e de outros eventos tais como eclipses solares.

O artefacto é também notável por empregar a engrenagem diferencial, que se acreditava ter sido inventada apenas no século XVI, e pelo nível de miniaturização e complexidade de suas partes, comparável às dos relógios produzidos a partir do século XVIII.

Estima-se que em sua construção tenham sido utilizadas muito mais engrenagens que as encontradas, supondo-se que muitas se perderam, provavelmente durante os 2000 anos em que o dispositivo ficara submerso até seu resgate em 1901.

Todas as inscrições encontradas no mecanismo foram feitas em grego koiné, sugerindo que o mecanismo tenha sido construído no mundo helénico em 97 a. C provavelmente em uma academia fundada pelo filósofo estóico Posidónio na ilha grega de Rhodes, que na época era conhecida como um centro de astronomia e engenharia mecânica; esta hipótese sugere ainda que o mecanismo possa ter sido projectado pelo astrónomo Hiparco, uma vez que contém em sua dinâmica de funcionamento vários elementos de sua célebre Teoria Lunar.

Recentes descobertas sugerem ainda que o conceito para sua construção tenha origem mais provável nas colónias de Corinto, o que pode implicar uma conexão com o grande Arquimedes de Siracusa.



A polémica sobre sua funcionalidade e precisão, ganhou força pela divulgação de várias teorias que aventam a existência de civilizações mais avançadas que contribuíram para o avanço da humanidade em tempos imemoriais compondo uma tecedura intrincada de descobertas arqueológicas no mínimo inquietantes. Descobertas essas agrupadas em torno do conceito de OOPART (Out of Place Artifact).

Aliás, esse é um dos meus temas preferidos, inclusive abordado em alguns de meus contos, tais como os premiados “Propriedade Intelectual” e “Singularis Verita” (A Cor da Tempestade, Multifoco – Rio de Janeiro – 2011) e no meu romance “O Mesmo Sol que Rompe os Céus” (ainda no prelo), reportando-se a essas tão estranhas teorias que tendem a nos apresentar “verdades muito singulares”.

Polémicas à parte, esse artefacto pode ser prova de que a história, como nos foi ensinada na escola é, no mínimo, incompleta ou subestima a nossa capacidade de evolução e de criação; podendo actuar também como um convite à superação de nossos preconceitos.

Nesse nosso calendário Olímpico, a meu ver, não há nada mais competitivo do que isso:
– Superarmos nós mesmos, todos os dias, ante o girar das engrenagens insólitas de um computador de dois mil anos.

                                          -o-

Em tempo: O termo “OOPART” foi criado pelo biólogo e escritor escocês naturalizado americano, Ivan Sanderson Terence e é pouco aceite pela ciência oficial. É empregado para designar objectos relevantes para a história, arqueologia e paleontologia e que foram descobertos fora de contexto ou em sítios incomuns.

O termo também inclui artefactos aparentemente “impossíveis” de serem encontrados naquele local, por serem anacrónicos ou por possuírem uma tecnologia contrastante com os demais artefactos encontrados. Mas – bem – isso já é assunto para outro artigo – não perca!

                                           -o-

Assista o vídeo do Canal História sobre o Mecanismo de Anticítera:


[Imagens:Wikipedia]




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